Sweetie, de Jane Campion

A irmã é livre, não tem amarras, causa espanto na controlada protagonista, Kay (Karen Colston). A irmã, apesar de coadjuvante, é a personagem-título, tudo o que a outra, a regrada e por isso quase sempre chata, não pode ser. Nem tentará: o mundo de Kay é de dificuldade, estranheza, de relacionamentos esquisitos e gente atônita.

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Para a cineasta Jane Campion, Kay – em seu regramento, em sua forma de enganar a si mesma – tampouco gerará conforto em Sweetie. A realizadora evoca o espírito de certo cinema moderno que, nos anos 1980 e 1990, celebrava, ao mesmo tempo, a graça do vazio, a composição colorida, a casa de bonecas, o tédio e os deslocamentos lentos.

Em todo caso, sempre resta à cena alguém com cara de dúvida, um gesto impensado, uma pequena personagem com atitudes estranhas – bem como nos cinemas de diretores variados como Hal Hartley, Jaco Van Dormael e Wes Anderson. O clima pesado, com suas pessoas perdidas, não se reduzia a uma nação, o que talvez possa ser explicado.

Ao mesmo tempo em que a desilusão impera, a comédia ganha a vez. Pode ser tão real quanto falso, à medida que tudo se transforma no instante seguinte. Para a controlada Kay, a forma de viver da irmã não carrega sentido: ela, Sweetie (Geneviève Lemon), faz o que quiser e, ao arrombar a porta da casa da primeira para morar ali, não é ignorada.

O problema de Kay é viver para encontrar um sentido, para ver as peças encaixadas. Sua ideia inclui o destino, apontado pela vidente que consulta ainda no início: em seu caminho, diz a sábia, surgirá um rapaz com um ponto de interrogação no rosto. Não demora e a profecia é confirmada: Louis (Tom Lycos), um colega de trabalho, tem a franja do cabelo com a forma do símbolo, o suficiente para ser agarrado por Kay.

Para alguém assim, a árvore cujas raízes tomam forças inesperadas – forças da natureza representadas pela estranha família que se separa e, veja só!, une-se outra vez ao longo da história – causa medo. Kay não suporta a natureza e, na dúvida sobre o que esta pode representar, viva ou morta, retira seu exemplar do quintal e o esconde embaixo da cama.

Fala-se aqui de uma pequena árvore plantada por seu novo namorado, o verde que, em pedaços, apodrece sob o móvel. Em Sweetie, a natureza pulsa, os desejos afloram – seja para o homem em sua companhia, um estranho produtor de música; seja para o namorado da irmã, ao qual lança algumas lambidas; seja até mesmo para o pai, em banho.

O filme de Campion naturaliza o desencontro, o impossível. A dinâmica de vida dessas pessoas ainda assim não escapa ao mundo real. No fundo, Kay e Sweetie, os opostos, id e superego, são um pouco verdadeiras. A segunda é a resposta à prisão da primeira; é a irmã indesejada e que “precisa” morrer porque ultrapassou os limites.

Se Kay está destinada a ter medo de raízes, da grande árvore que toma rumos imprevisíveis, Sweetie vai além: aceita subir na árvore, viver sobre ela, debater-se nua – literalmente – enquanto tentam convencê-la a descer. Outro ponto, por sinal, em que o absurdo toca a realidade, em que faz sentido crer nas pessoas antes das representações.

Campion é habilidosa. Em um curta-metragem anterior, An Exercise in Discipline: Peel, a diretora parece dar indicações do que viria em Sweetie: à estrada, um homem, seu filho e sua irmã passam da velocidade e do cálculo ao enfado e à paralisia. Com o carro parado, sujeira pela pista, a mulher e o homem perdem a voz, olham ao nada, e apenas a criança continua em movimento, aos pulos (como Sweetie?), sobre o veículo.

A exemplo de Kay, que pensa demais e tenta driblar os problemas, essas personagens dão de cara com o espírito morto e percebem estar à deriva. Talvez perderam a vontade de viver. Em crises e explosões, Sweetie é maior, autêntica, não se esconde ou interpreta, uma criança cheia de desejos que não pensa nas consequências.

(Idem, Jane Campion, 1989)

Nota: ★★★★☆

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