Deixe a Luz do Sol Entrar, de Claire Denis

Filmes sobre mulheres maduras em busca do amor existem aos montes. Sobre mulheres que não conseguem amar, são raros os casos. Deixe a Luz do Sol Entrar situa-se justamente no segundo time: as desventuras de uma bela mulher que talvez esteja cansada de relações a dois e, por motivos nem sempre fáceis de entender, continua tentando.

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Sob medida ao papel está Juliette Binoche, a quem o tempo insiste em não passar. Desde as primeiras imagens, fica evidente como se dará essa entrega – a do corpo, mais que a dos sentimentos. Quer dizer, em algum ponto os sentimentos não infiltram, não ultrapassam a relação da carne, o desejo, a facilidade como as coisas se dão.

Essa mulher não consegue amar justamente porque ama demais. E dessa contradição surge um filme sempre interessante sobre complicações humanas, aqui as femininas, em um eterno vai e vem que, às aparências, reproduz lugar algum. Por outro lado, a realidade que daí sai é vibrante, em momentos cômica, em outros triste.

A cineasta Claire Denis tenta – mas nem sempre consegue – reproduzir uma peça sobre a liberdade feminina. Se por um lado a mulher pode se entregar demais, por outro deve lidar com seu interior, com dores difíceis de administrar, também com homens que se colocam entre boçais e moderninhos, alguns até um pouco estranhos.

Eles não importam tanto. Eis um filme sobre o feminino, feito por uma mulher, mas que, a partir de sua personagem instável, não abraça por completo a bandeira feminista. É sobre a dificuldade de lidar com os conflitos, com a falta ou o excesso de amor, não com os homens. E na bela ao centro brotam menos discursos e mais frases soltas.

Isabelle (Binoche) surge com os seios à mostra logo na primeira imagem. Tem companhia. Um homem faz sexo com ela. O espectador descobre que se trata de um amante, um banqueiro casado (Xavier Beauvois). A certa altura, no melhor diálogo do filme – momento em que a câmera vai e volta aos rostos das personagens, sem apelar a cortes -, ele confessa que não deseja deixar sua mulher para ficar com Isabelle.

Talvez não fosse o pior a dizer a alguém que não consegue amar. Isabelle, contudo, toma o caso como insulto, sente-se em segundo plano. Mas logo passa. Surgem outros homens, um deles um ator (Nicolas Duvauchelle) que se queixa da vida, cansado dos palcos – de suas repetições, noite após noite – e da vida de casado. Ao contrário do outro, é um insatisfeito; como o outro, não consegue deixar o papel que está interpretando.

A protagonista será sempre a mesma, autêntica, distante da máscara pronta. É excitante em seus aparentes defeitos, lágrimas, sorrisos agradáveis. Impossível não se apaixonar por Binoche, o que torna incompreensível a distância de alguns homens nessa anti-comédia romântica, ou nessa negação do catálogo pelo que mais parece real.

O título fala desse estado de abertura no qual vive Isabelle: lançada à luz, às possibilidades, a todos aqueles que cruzam sua caminhada. É, segundo Denis, sobre viver e aceitar as consequências do acaso, sobre pequenas aventuras cotidianas que não se deixam banalizar.

Em filmes anteriores da cineasta, personagens sofrem em silêncio, isoladas, sob o menor contato com o outro, submetidas a sentimentos estranhos e que não podem explicar. Basta lembrar dos grandes Chocolate e Bom Trabalho. A Isabelle de Deixe a Luz do Sol Entrar talvez não esteja distante dessas figuras anteriores. Sua autonomia – a de uma mulher resolvida em uma vida moderna – é com frequência questionada.

(Un beau soleil intérieur, Claire Denis, 2017)

Nota: ★★★☆☆

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