Por que a crítica de cinema continua ‘regando o oceano’?

A crítica de cinema, em sua maioria, tem se rendido a eventos, ao barulho de grandes produções. Em certa temporada, é só isso que lhe interessa. Segue assim as “tendências”, o mercado, a onda que se forma na rabeira de uma grande produção.

Como o mercado, por natureza, não é justo, o que se espera da crítica é um mínimo de equivalência: um filme relevante deveria ter seu espaço garantido em sites, jornais, revistas e outros canais diversos em que se pratica a análise fílmica.

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Não é o que acontece no Brasil. Na última semana, a crítica dita especializada inclinou-se a Vingadores: Ultimato, que ocupa 80% das salas de exibição do país em sua primeira semana de estreia. Ninguém nega o peso e o apelo do lançamento. O que se vê, outra vez, é um evento de grandes proporções que a crítica não deixou passar em branco.

Não é o caso de dizer que o filme não merece espaço em veículos de comunicação e sites que ainda levam a crítica a sério (sim, são poucos). O que assusta não é o tamanho do espaço dado aos heróis da Marvel, mas a falta do mesmo a outros longas-metragens.

Uma das funções da crítica é a equivalência, à contramão do mercado. Afinal, senão a crítica, quem mais poderá colocar Vingadores: Ultimato e, por exemplo, Em Trânsito, o novo de Christian Petzold, em pé de igualdade? Alguém vai dizer: “quem é Christian Petzold na fila do pão, contra um arrasa-quarteirão que ocupa 80% do mercado?”.

Eis o problema: em um país que não consegue formar público e, por isso, não consegue expandir obras como Em Trânsito para um circuito maior, a crítica continua a dar mais peso àquele que está com o espaço ganho, ingresso vendido, tipo de filme que, em clara ironia, não precisa da crítica para se vender ou para um pequeno empurrão.

Importante ter algo em mente: a crítica de cinema no Brasil tem pouquíssima (a depender do lugar e do público) ou nenhuma influência sobre o destino comercial de um filme. O que, de novo, não significa dar de ombros ao novo produto da Marvel, tampouco para qualquer outro filme lançado em terreno nacional, em salas ou no streaming.

A miopia crítica consiste em seguir a onda, aderir ao barulho, enquanto fica a impressão de que apenas Vingadores: Ultimato chegou às salas de cinema na semana de sua estreia. Nesse mesmo pacote estão outros seres conhecidos: youtubers com camisetas do Capitão América, sites empenhados em ganhar cliques e até veículos respeitados.

Em crítica negativa na Folha de S. Paulo, Ivan Finotti gasta algumas linhas para falar do comportamento do público no cinema, entre gritos e palmas, durante a sessão do filme. O texto foi recebido com ódio por fãs da Marvel e com um ar de graça por quem não se importa. No fundo, criou-se um falso debate a partir de uma análise sem aprofundamento, de alguém que só agora parece ter percebido que a Marvel está fazendo comédia e lamenta a falta de “ação ou lutas”.

No entanto, há algo esclarecedor no texto de Finotti: a atenção para o comportamento de seus colegas jornalistas na sessão para a imprensa, infantilização que, até então, alguns acreditavam ser exclusividade do público. O autor destaca o que já se sabe: blogueiros e influenciadores digitais estão dominando as sessões de imprensa.

A crítica, uma pena, tem se deixado levar pelo buzz, misturando-se com profissionais afinados à publicidade, inclinada a fazer um papel idiota, algo como “regar o oceano”. Não existe arte sem crítica séria e especializada. Dar espaço a obras menores – não em qualidade cinematográfica, que fique claro – é papel da crítica de cinema. Espaço menor, igual ou maior que o de Vingadores, a depender da qualidade e relevância do filme em questão.

Veja também:
Os oito principais erros cometidos pela crítica de cinema

2 comentários sobre “Por que a crítica de cinema continua ‘regando o oceano’?

  1. Talvez porque esse oceano molhe as praias da crítica…
    De que vale falar sobre Dreyer ou Ozu quando todos irão ler sobre o lançamento que é esperado como o top do ano?
    Há toda uma lógica envolvida em cada redação.
    É uma lógica cruel, mas ainda é uma lógica que rende dinheiro…

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