Border, de Ali Abbasi

Os cães são treinados para atacar, latem e estranham a protagonista de Border, com a qual dividem a mesma casa, o mesmo terreno. Será uma relação difícil, ainda que ela pareça compreender os animais, em entrega – à frente, sobretudo – à natureza. Mas os cães respondem aos homens, autores de todos os problemas, ou quase todos.

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A mulher tem traços animais. Descobre, mais tarde, ser uma troll, dona de capacidades especiais – tal como o faro aguçado para sentir o que está ou não na superfície dos homens. Seu sexto sentido é usado pelas autoridades na fronteira de seu país, ponto de encontro entre diferentes ou invasão à nova terra, onde nem sempre se aceita o outro.

Ela própria será transformada quando encontra seu par, um troll de olhar estranho, deslocado, que a faz se confundir: à primeira vista, crê que o mesmo carrega algo ruim, leva-o para ser revistado e descobre que é apenas outro qualquer nos limites dessa fronteira borrada. Ao achá-lo, vê-se no espelho, sabe mais sobre si mesma.

Heroína estranha para um filme estranho, da curta história de John Ajvide Lindqvist, com roteiro co-assinado pelo diretor Ali Abbasi. É a história de seres deslocados em ambientes que lhes servem à perfeição: ou na fronteira, em que a vigia e o mal-estar são contínuos, ou na floresta, lado oposto do jogo, em que todos encontram espaço para se livrarem das amarras sociais, das belezas humanas que, como se verá, podem desembocar em pedófilos.

O filme de Abbasi é difícil de definir. Sua Tina (Eva Melander) esconde sensibilidade. Vê-se mais livre quando descobre seu lado bruto, ou apenas entende que tudo faz sentido quando este aflora. No encontro com Vore (Eero Milonoff), o outro troll, passa a se alimentar das ideias do companheiro: talvez seja melhor rosnar, ser como cães.

Como guarda de fronteira, Tina aprendeu as virtudes – ou o que deveriam ser – do chamado mundo civilizado. Sob a imagem fria, trepidante, às vezes sem foco, a personagem obriga o público a olhar para o outro enquanto olha a si mesmo, ao passo que o “estranho” é o “normal”: o espelho invertido une o monstro à donzela.

Tina, deslocada, ao mesmo tempo dona de poderes especiais, descobre com Vore o ato sexual que parece estranho, até bizarro, com sua diversidade. Ela vibra, explode em desejo e alegria, nunca havia vivido algo semelhante. Esse universo (novo) não conduz a outro ponto senão ao de início. A mulher, como tantas, almeja ser mãe.

Na cidade, a protagonista encontra o falso cortês. Com sua ajuda, a polícia chega à casa em que se escondem criminosos de uma rede de pedofilia. Em algum momento, entre os menos e os mais suspeitos, todos passam pela mesma fronteira, o mesmo corredor, ao faro de Tina, aos seus olhos desconfiados, como os de um animal que pressente o problema.

Os dias de felicidade, na natureza, dão espaço às estranhezas de Vore, aos pequenos monstros que gere e guarda na casa dos fundos, ainda no terreno dela. O igual começa a parecer diferente para Tina. Os problemas do mundo urbano tocam a vida dos afastados.

O novo companheiro não pode dar a Tina o novo mundo que promete. Será apenas um passo à transformação. De tempos em tempos, ela visita o pai de criação em um asilo. Precisa encarar outras pessoas, vizinhos, gente do trabalho, ou os bandidos que ajuda a perseguir, os anônimos que vigia, dias a fio, na fronteira. Os humanos perseguem-na.

(Gräns, Ali Abbasi, 2018)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
O Passo Suspenso da Cegonha, de Theodoros Angelopoulos

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