A saga Lady Snowblood, de Toshiya Fujita

O caminhar da assassina Yuki Kashima é feito saltinhos. Perigosa, ela não renuncia ao efeito feminino e oriental, rosto branco como porcelana, olhar frio. A forma como mata, tranquila, sequer esconde a coreografia nos dois filmes de Toshiya Fujita, do mangá de Kazuo Koike.

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A primeira parte de Lady Snowblood, Vingança na Neve, mostra como Yuki torna-se a dama do título, ou como a morte de sua família dá vez à assassina perfeita. A imagem inicial não poderia ser mais simbólica: Yuki nasce na prisão, com a neve do lado de fora, entre barras de madeira.

A segunda parte, Uma História de Canção e Vingança, é diferente. A ambição leva a dama assassina a esbarrar no mundo de contornos políticos. Se antes os vilões eram visíveis, tudo, depois, fica mais confuso e opaco.

A Yuki do primeiro filme – menos sentimental, não menos consciente – é mais interessante. Na abertura, quando mata um homem poderoso e seus capangas, deixa claro que as vítimas são escolhidas a dedo. Ela cresceu com a missão de matar os quatro criminosos que mataram parte de sua família. Um deles foi morto por sua própria mãe, que terminou presa. Yuki nasce do estupro coletivo, sem família, sem pai.

A direção de Fujita esconde a podridão por trás do visual bem cuidado, de cores e sombras, aparência velha. Essas cores são tão importantes quanto problemáticas: elas dão a ideia de um filme mais antigo do que realmente é. A obra abre possibilidades: nem a coreografia nem a frieza da heroína ocultam frescor e vida. O corte da espada vem acompanhado de um novo plano, no qual o sangue jorra sem economia.

A morte é sempre celebração, ao passo que Yuki quase dança entre homens, em meio à roda, enquanto “passa” sua pequena espada – antes escondida no guarda-chuva – pelos corpos, pelos figurinos bem cuidados, à neve ou à beira-mar.

Treinada com rigor, ela segue a rotina de matanças. Vingança na Neve leva a seu passado. A sequência da morte da família mostra o quanto Fujita propõe a mescla entre clássico e moderno: os enquadramentos da beleza do povo nipônico e suas tradições encontram uma violência aparentemente gratuita.

O sangue em exagero faz parte do jogo. A câmera trepidante nem sempre esconde a estilização que certamente fez brilhar os olhos de diretores como Quentin Tarantino, que inegavelmente levou a estrutura para suas duas partes de Kill Bill. Alguns quadros, como o dos quatro assassinos em contra-plongée, seriam copiados por Tarantino.

Para Fujita – e, mais tarde, para Tarantino – aquele é apenas um rito de iniciação a tudo o que vem a seguir: é a forma de justificar a saída de Yuki, ou da Noiva, ao estranho mundo de descobertas, depois à política. Em Vingança na Neve, Yuki mata os oponentes pouco a pouco. Há mais ação que na segunda parte. Em uma de suas buscas, ao descobrir que o alvo já estava morto, não esconde a insatisfação.

Como explica seu mestre, a moça nasceu apenas para a vingança. Terá dificuldade para tomar novo rumo, descobrir outra missão, viver em um lugar dominado por figuras que nem sempre se definem como heróis ou bandidos. Na parte final do primeiro filme, ela vê-se obrigada a retirar a máscara em um baile de máscaras. Em um Japão em mudanças, o baile, com bandeiras de outras nações, representa a entrada do país no mundo ocidental, nas formas opostas às de Yuki.

Uma Canção de Amor e Vingança, lançado um ano depois da primeira parte, em 1974, tem início com Yuki sem caminho, após perder o mestre e o próprio sentido. Fica sem uma trilha a seguir. Ao prender o pé em uma armadilha para animais, a representação dessa nova condição torna-se então evidente.

Vivida por Meiko Kaji, Yuki é impassível. Presa, condenada à morte em um tribunal de vozes composto apenas por sua face e o fundo escuro, ela será salva pela polícia política, incumbida, mais tarde, de seguir um anarquista. A transformação não demora: a convivência com o outro permite um novo olhar à assassina angelical, nova camada à jornada da personagem que não quer agradar e, com pouco, muito revela.

(Shurayukihime, Toshiya Fujita, 1973)
(Shura-yuki-hime: Urami Renga, Toshiya Fujita, 1974)

Notas:
Vingança na Neve: ★★★★☆
Uma Canção de Amor e Vingança: ★★★☆☆

Veja também:
A saga de Bill Rohan

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