Madame Bovary, de Jean Renoir

As palavras, o próprio Jean Renoir confessaria, pertencem a Gustave Flaubert. Seria impossível para o cineasta francês – sem qualquer problema em assumir isso – substituir o texto, ou mesmo fazer pequenas alterações. Renoir levou-o com tudo a essa bela adaptação, justamente no choque entre o literário e o real.

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As palavras tinham de ser ditas daquela maneira, como estava no livro, segundo o diretor: “(…) em fazendas reais com telhados de colmo reais, e em torno destas fazendas reais haveria vacas, gansos, galinhas reais, e as pessoas à mesa, na sala de jantar ou na cozinha, bebiam cidra de verdade”. O realismo é gritante, típico desse cinema.

Na tela, muitas cenas são resolvidas em um único quadro, sem decupagem clássica. Ao dispensar a montagem, Renoir exemplifica, na aurora do cinema falado, o que André Bazin tantas vezes elogiou: a profundidade dá conta de toda a situação, de muitas seres e elementos em cena, sem que seja necessário cortar de um para outro, de imagem para imagem.

Mantêm-se a integridade da tela, a profundidade desses espaços reais, no campo, nas pequenas casas de gente pequena, que Renoir admirava – pouco antes de chegar ao realismo absoluto de Toni, filme seguinte. O casal ao centro pode sair de casa e ir em direção à carruagem que a mulher acaba de ganhar sem que se recorra ao corte, ao passo que toda a ação desenrola-se primeiro no limite do quadro, depois no da janela.

Renoir, com este e outros trabalhos, explorava as dimensões do espaço, e nunca negou a aproximação à composição teatral. Dava poder aos atores, deixava que improvisassem. “Eu queria que meus atores interpretassem como se estivessem no teatro”, afirmou, ao escrever sobre Madame Bovary, enquanto buscava a realidade do universo ao redor.

Emma, presa ao casamento chato, levada a sonhar grandes histórias de amor, é vivida por Valentine Tessier. Apesar da impostação forte, algo próximo ao teatral permitido por Renoir, não se vê densidade na atriz, sobretudo na primeira parte. Em seu aspecto realista, em suas poucas variações de plano em um ambiente, o diretor não permite grande imersão psicológica em pessoas que sofrem e não enxergam a própria pequenez.

É da mise-en-scène de Renoir: a perspectiva realista cobra seu preço e, ao se tratar aqui de um dos maiores realistas do cinema, de certo não se perde tudo. Nem se sofre pela ausência do aspecto trágico – ou do melodrama – que algumas passagens poderiam conter (exercício de imaginação que, à crítica de cinema, não cabe fazer).

Ao assegurar o real, o fundo e o tamanho do mundo que trancafia Bovary, Renoir oferece o que há de profundo no quadro ou, para além dele, do cinema. Adapta a obra famosa – sem esconder o roubo das palavras – fazendo seu próprio cinema, com suas inúmeras camadas, seus movimentos, seus seres deliciosos e leves.

A composição do real desafia o espectador: está tudo ali, sem falsidade, como se o universo de Bovary – comum a tantas mulheres, não se duvida – pertencesse agora a uma nova esfera que não a literária, como se a mulher sonhadora pusesse agora seu corpo para fora, como se fosse gente comum que amou demais, sem caber no próprio mundo.

É como se Renoir dissesse que existem milhares como ela – ainda que sua trajetória não seja diminuída por isso. No fundo, o autor não joga com a ilusão, com as palavras presas à mente da mulher, tampouco com o desprezo dos outros ou o amor bobo, automático, do marido ao lado, homem da ciência, impotente e desagradável por natureza.

Enquanto assistem à ópera, ela emociona-se, o marido fala e não entende o que ocorre. Ele reclama, diz que tudo parece confuso. Seu olhar em linha reta nada tem a ver com o da própria mulher, extasiada pelos giros dos amantes – ou apenas pelo sentimento – no palco. Bovary prefere mágica, espetáculo, torna alto o preço a pagar.

(Idem, Jean Renoir, 1934)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Visages, Villages, de JR e Agnès Varda

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