Nós, de Jordan Peele

O filho pequeno não larga a máscara de demônio com dentes longos, a filha vive pregada ao universo da internet, o pai compra um barco branco como o do amigo branco e louro, que tem filhas gêmeas. Os duplos, mais ou menos escancarados, estão presentes desde o início de Nós, cuja protagonista é uma mulher atormentada.

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O problema de Adelaide Wilson (Lupita Nyong’o), logo se sabe, tem a ver com a infância. Com os minutos em que ela, em noite chuvosa, perdida dos pais, viu-se no interior de uma casa de mágica, labirinto de espelhos no qual encontrou seu duplo. Dessa experiência não foi mais a mesma: parte de si, antes submersa, veio à claridade.

Mais tarde, já adulta, volta à mesma praia, perto do mesmo labirinto de espelhos, ainda uma atração para turistas, agora na companhia do marido e dos filhos. Reproduzem – nos diálogos no carro e depois na casa de descanso – a família feliz, comum, logo atormentada por sua réplica: mãe, pai e filhos vestidos de vermelho, à noite, à porta da casa.

Os outros são eles, logo descobrem: as diferenças – deformações, forma do cabelo, pouca fala – conduzem às semelhanças. Não é fácil olhar no espelho, descobriu Adelaide, quando criança, ao se perder no labirinto. Décadas depois, precisa confrontar o outro, seu reflexo, o que ficou dela – e de todo ser humano – no mundo inferior.

Revelar muito tira o gosto das mutações do filme de Jordan Peele. Seu primeiro acerto é a injeção do exagero, sem medo de descambar ao bizarro. O diretor permite que o lado fantástico da obra seja destilado aos poucos, mantido no campo das representações, sem nunca ser uma entre tantas fitas recentes de fantasmas e sustos.

Em Corra!, Peele erra na condução: não sabe como destilar o bizarro, o fantástico, e passa por diferentes gêneros até chegar ao horror e às doses de sangue. Em Nós, dribla os problemas e entrega uma obra adulta, ambiciosa, para ver sua maturidade. Seu eixo é o humano, a personagem que recebe à porta sua própria sombra, que precisa proteger a família enquanto aprende a matar os visitantes, a sobreviver ao apocalipse.

O problema é maior: por muito tempo, diz a história, os outros viveram em buracos, espelharam a vida dos que ficaram acima, ao conforto da suposta realidade. Os duplos estão prontos para se rebelar, cobrar o preço, cansados de seus coelhos e de se verem como marionetes, cópias imperfeitas às quais a luz do sol foi negada.

Nessa revolta (ou tomada de consciência) há algo bíblico: mais de uma vez, um homem de cabelos longos empunha uma placa na qual se lê “Jeremias 11:11”. Refere-se à passagem que evoca a voz de Deus, que trará o mal “sobre eles, de que não poderão escapar; e clamarão a mim, mas eu não os ouvirei”. As pessoas não suportarão seus gêmeos.

O capítulo (11) reflete o versículo (11). Os números refletem-se. Os duplos nunca se desligaram de seus pares à luz do sol: são a amostra de seus piores problemas, antes ocultos e agora à frente: do pai boa-praça ao outro violento, do filho que brinca com o isqueiro ao outro que teve o rosto queimado, da menina introvertida à outra que sempre sorri.

No caso de Adelaide, a aproximação à réplica é maior. Por momentos, são a mesma; no passado, crianças, elas dividiram a dança, e agora dividem golpes, tentam sobreviver à confusão em que se viram enfiadas. Peele toca a dificuldade de aceitar, ou encarar, ou sobreviver àquilo que pode representar o excluído, pobre ou marginalizado.

Algum estranhamento será visto na convivência entre negros e brancos, como se viu em Corra! Mesmo que os pais se comuniquem com facilidade, os filhos não se misturam. A casa e o barco da família branca são maiores, como era de se esperar. Em comum, brancos ou negros, todos têm duplos para matar ou se deixar abater, seus reflexos.

(Us, Jordan Peele, 2019)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Corra!, de Jordan Peele

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