Assunto de Família, de Hirokazu Koreeda

Nada – nem a mentira, nem o crime compartilhado, nem o sentimento de não fazer parte – derrota o afeto. Há de se olhar para trás, no fim, para o outro, enquanto se segue à nova vida. Não se esquece o ponto anterior, ponto de origem à criança que nada viveu e cuja fonte de aprendizado – também de afeto, claro – é a família desajustada.

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Assunto de Família começa com a menina perdida, criança ainda em seus primeiros passos. Termina na casa em que passará os próximos meses – do inverno ao verão escaldante, capaz de fazer o tecido pregar-se ao corpo constantemente, antes de se retornar a novo inverno. Desse ciclo, para ela, para outros, surgem lições de afeto.

A família, núcleo remendado, feita de necessidades e aproximações, é aqui o único espaço possível para dividir sentimentos; com ela, ou com parte dela, a criança poderá ter algo a se agarrar, algo para viver, estar com outros, dividir afetos e pequenas aventuras, praticar atos que não entende ao certo, furtos cometidos em diferentes comércios.

Uma família de ladrões cujos crimes serão condenados justamente por uma das crianças, a mais velha, o garoto Shota (Jyo Kairi). A mais nova, recém-chegada, não entende o que faz. A mais velha sabe dos problemas e, ao contrário dos adultos, é o ponto de consciência dessa história delicada sobre gente à margem, à sombra de um país desenvolvido.

A família, segundo o cineasta Hirokazu Koreeda, será compreendida pelos instantes: se por um lado o ciclo impõe-se, com o tempo em saltos, pelas estações do ano, por outro a narrativa constitui-se de pequenos momentos – ou pequenos milagres, como parece ser o caso – nos quais se compreende mais sobre todos, sobre lições de afeto.

Como se em tudo o que há de ruim o oposto achasse maneiras de se embrenhar, e, ainda que pareça clichê, Koreeda mantém a consciência do tom desejado, menos amargo que Ninguém Pode Saber, mais dramático que Nossa Irmã Mais Nova. O diretor japonês tem provado ser um autor, a ver seres desviados pela lente da comédia de costumes, seres corretos pela lente do medo – sem que não chegue a inverter os lados por completo.

O casal de adultos será visto, em momentos, como pai e mãe. Mais tarde vêm à tona seus crimes passados. Difícil acreditar nessas maldades – ainda que os furtos estejam ali, aos olhos do público, para unir os que dividem instantes. O pai, Osamu (Lily Franky), faz dos crimes um jogo, a diversão à qual arrasta suas crianças.

Os pequenos aliciados vivem pela cidade. A família existe em seu próprio espaço, desajeitada, na casa convertida em cortiço, a de seres que vivem para acumular coisas, todas espalhadas por todos os cantos. Como que por milagre, fogem para o quintal, em determinado momento, para olhar ao céu, para ver os fogos de artifício.

Da dificuldade de expressar o sentimento – próprio desse cinema humano – vem o movimento dos lábios. Sairá, ao fim, um estranho “pai”. Sem ser ouvido, por sorte traduzido em legendas. Instante de ligação com o passado, o ciclo anterior, que se fecha na postura da criança, justamente a mais adulta entre todos.

A família de criminosos, sem surpresas, não resiste. Enquanto se mantém, tenta fazer o que outras fazem. Será vista na praia, a certa altura, saltando ondas. O garoto cresce e recebe orientações do pai; a menina sente a água salgada pela primeira vez entre os pés; a senhora, na areia, assiste a essas passagens com felicidade, sob a força de inegável afeto.

(Manbiki kazoku, Hirokazu Koreeda, 2018)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
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