Conspiração, de Anthony Mann

A emoção está nos espaços, no deslocamento, na maneira como Anthony Mann lança sua personagem por corredores intermináveis, entre idas e retornos. O homem, policial sem insígnia, precisa descobrir a rede de conspiradores que tramam a morte do então presidente Abraham Lincoln em uma nação à beira da guerra civil.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

É fácil apontar sua fragilidade: a história é diferente, Lincoln não foi assassinado durante a viagem que o levaria a Washington, após vencer as eleições. Bom ir com calma: em Conspiração, Mann não está interessado no destino final da locomotiva. Destacam-se os esconderijos, as máscaras que escondem os conspiradores.

E desse meio de máscaras vê-se um pouco – ou muito – de um país. Ou apenas uma dissimulação, pessoas que fingem cavalheirismo, que mentem o destino que pretendem tomar: deveriam descer em uma estação, mas descem em outra. O trem – com suas separações, sua gente rica, seus criados, seus militares como soldadinhos de chumbo – é um belo resumo de uma nação ainda não unificada, de demônios à vista.

Restam não os fins. Fica o espaço em que corre a ação, pelo qual Mann, outra vez, prova gigante talento. Do plano inicial quase nasce outro filme: a calma como compõe a chegada da locomotiva, sem trilha sonora, à medida que sobem os créditos, faz parecer um filme mais longo. E ainda que a metragem seja curta, Mann não acelera.

Assume-se aqui o filme histórico pequeno, não mais que uma fita policial – e que não chega a ser um noir. Seu herói nada tem de anti-herói: em Dick Powell, como John Kennedy, vê-se o tipo perfeito ao cinema clássico, ao qual o mesmo serviu bem e em muitos filmes. Faz tudo para revelar quem são os homens que pretendem matar o presidente.

Algumas situações – grandes ou pequenas – correm ao lado, sem que ele veja. Sinais chegam primeiro ao público. Na primeira estação, por exemplo, Lincoln é demonizado por um jornal. A vitória do presidente ainda não é aceita por alguns grupos ligados ao poder. Os diálogos não escondem o ranço dos supostos civilizados.

Alguns momentos beiram o suspense hitchcockiano, como a sequência em que o vilão avisa o comparsa sobre a presença do presidente ao escrever no vidro da janela. O outro só consegue enxergar a mensagem quando a lê através de um reflexo. A sequência, de tão cinematográfica e engenhosa, é de difícil descrição.

Talvez resuma o próprio filme de Mann: é de mensagens escondidas, para se ler não sem dificuldade, que é feito. As pessoas que correm ali – o policial honesto, o militar cínico, o rapaz usado como massa de manobra pelos conspiradores, a escrava consciente de sua posição inferior, além das pequenas personagens, como o funcionário que tenta colocar ordem no trem e é incapaz de enxergar o problema – são velhas conhecidas.

A câmera registra o movimento de Kennedy, de uma extremidade a outra do vagão, sem sair do mesmo eixo, em movimento panorâmico. O uso dos espaços aprofunda o suspense, depois a ação, a agonia da espera. Com a chegada do trem à cidade, os assassinos revelam seus planos à medida que o universo externo é mostrado, incluindo a janela na qual o atirador estará posicionado para matar o novo presidente dos Estados Unidos.

Nada está fora do lugar em Conspiração. Nem o presidente, real, mítico, guardado em uma das cabines não invadidas, de olho no futuro. É um filme político, nada ingênuo, um recorte sem respostas claras composto por homens determinados, forma como se imagina alguns heróis do passado. O que inclui um destemido policial do cinema clássico.

(The Tall Target, Anthony Mann, 1951)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
A integridade de James Stewart em dois faroestes de Anthony Mann

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s