Cafarnaum, de Nadine Labaki

Livres ou presas, as crianças estão sempre vulneráveis. Correm e tropeçam, esbarram e xingam os outros, vivem no meio-fio, em risco constante, às portas do choque com o metal ou o concreto. Há miséria, desamor, mas, para Nadine Labaki, há antes a relação física, estado em que a criança vê-se despregada de tudo.

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O físico em excesso é o principal acerto de Cafarnaum, aparência de maturidade de sua realizadora. O jovem protagonista, como tantas crianças pobres e marginalizadas, anda em círculos, retorna aos mesmos pontos. Os cabelos crescem bagunçados, a dor nos olhos é cada vez maior. A certa altura, toma consciência de sua posição e, mais ainda, do crime cometido pelos pais ao colocá-lo no mundo.

Essa consciência encaminha-o ao tribunal: para todos – juiz, advogados, pais e outros que passaram por esse começo de vida -, revela o desejo de vingança, ou justiça. É quando a criança toma – à contramão da forma raquítica – a posição adulta, no local em que todos podem ouvi-la, dar algum crédito, talvez, àquilo que externa.

O tribunal é o presente, ponto de pouca mobilidade, seguro, local em que a criança finalmente está presa ao adulto, não mais à própria sorte. Por outro lado, o tribunal guarda o momento mais dramático, quando o pequeno pode dizer o que pensa dos outros, confrontar os pais que o geraram e o fizeram sofrer.

Em passado nada distante está a criança inconformada, que não aceita o fato de os pais terem vendido sua irmã de 11 anos. O filme de Labaki é uma sucessão de tristezas permeada por realismo, pela impossibilidade de não se apegar aos desprotegidos. Pouco é muito. O drama está dado pelo local, pelo movimento, sobretudo pela condição.

Em momentos, chicoteia o espectador com gestos bruscos e rápidos movimentos de câmera; em outros, busca o nada. E detalhe algum escapa à atmosfera de pavor, sujeira, do sentimento de que a qualquer momento tudo pode vir abaixo – um barraco, uma viela, o corpo de uma criança. Ao lado, os passantes não estão atentos aos sinais dessas quedas.

O sofrimento é grande em determinado momento. O protagonista Zain (Zain Al Rafeea) deixa um bebê amarrado a um cordão, a alguns metros dele, na calçada. O espectador assiste à criança indefesa tentando se movimentar. Perigoso se soltar, perigoso ficar ali. Perdida, sem nada, enquanto Zain, também criança, quer se livrar do fardo. Viveu o suficiente para sentir seu peso, compreender a dificuldade de criar um bebê.

Ser adulto talvez não signifique ter força para carregar e criar uma criança, mas a consciência de que, em certos casos, melhor é entregá-la para outro cuidar. O problema é que Zain entrega à pessoa errada. Antes, com panelas e a mesma criança a reboque, sentiu na pele a dificuldade de sobreviver ao ambiente em que é preciso gritar para ser visto.

Labaki realiza um filme em que as crianças não são feitas de puro amor ou bondade, idealizadas como nos filmes clássicos. Nem sempre são bondosas ou más em excesso. Zain é verdadeiro, criança como criança, como ensinava Truffaut. Menino que viveu muito em pouco tempo, que se revolta com as coisas como são. Suas palavras não se dirigem apenas aos pais ausentes, ao se reencontrarem no tribunal. Vão além.

Outros, próximos ou não, também são culpados – menos que os pais, porém culpados. Não puderam resgatar – ou sequer enxergaram – a criança que, ainda cedo, aprendeu a amassar medicamentos para fazer drogas, obrigada a vender suco nas esquinas, a quem sequer um documento foi feito e, depois de tudo, ainda capaz de sorrir para a câmera.

(Capharnaüm, Nadine Labaki, 2018)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Você Nunca Esteve Realmente Aqui, de Lynne Ramsay

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