Os atos terroristas de 22 de julho em dois filmes opostos

À respiração e aos sussurros das vítimas, por Erik Poppe, impõe-se o painel, do ato terrorista ao julgamento do autor, por Paul Greengrass. São filmes que, em análise, confrontam-se. Dois cinemas para o mesmo caso histórico: o massacre de 22 de julho, na Noruega, quando um jovem de extrema direita matou 77 pessoas.

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O arquiteto do crime nunca é visto – ou quase nunca – na obra de Poppe, Utøya 22 de Julho: Terrorismo na Noruega. No filme de Greengrass, 22 de Julho, ocupará a tela do início ao fim, da preparação da bomba que explodirá na frente de um prédio do governo ao fechamento de sua cela, ao seu isolamento nos instantes finais.

Os filmes vão do radical ao convencional, do realismo ao drama calculado, do tempo real ao constante uso de elipses. Poppe utiliza o plano-sequência, do início ao fim, para lançar o espectador do centro da ilha na qual mais de 60 adolescentes foram assassinados, o segundo ponto de ataque do extremista Anders Behring Breivik. Ganham espaço a corrida, o som dos tiros, a aproximação dos rostos, trepidação, um cinema físico e realista que, colado aos corpos, exclui qualquer sinal do dramalhão.

Poppe elege uma garota, personagem fictícia, para viver aquele dia infernal. Menina que, como todos, ao som dos disparos, tentará sobreviver, achar uma saída. É Kaja (Andrea Berntzen), em desespero, em busca da irmã desaparecida no mesmo acampamento.

Sem cortes visíveis, em movimento ininterrupto, Utøya 22 de Julho não é exatamente sobre o massacre, mas sobre estar nele. É sobre se sentir como todos, ou apenas como Kaja, experiência-limite em que, paradoxalmente, tem-se muito pouco: no fundo, aos trancos e choques, não se vê quase nada nessa corrida pela própria vida.

O terror dessa experiência reside justamente na sugestão, na possibilidade de se deparar a qualquer momento com o monstro armado pela mata, na ilhota que ora ou outra deixa ver suas águas escuras, a impossibilidade de escapar. Por todos os cantos, jovens correm, gritam, tentam sobreviver. O som dos disparos não cessa.

Como em um videogame, é uma experiência em primeira pessoa, às cegas, o que o torna o mais apavorante dos filmes aqui citados. Para Greengrass, é preciso ampliar, chegar aos diversos pontos de um quadro que migra do primeiro-ministro ao assassino, das famílias ao advogado do algoz. Vozes não faltam, dos crimes ao tribunal.

A proposta de Greengrass fornece alívio. A de Poppe é amarga: a extrema direita continua a avançar pela Europa e, como naquele 22 de julho, é um risco à democracia. Sua protagonista encontra o desfecho oposto ao do protagonista lutador e sobrevivente de Greengrass: representa a própria morte de um certo ideal democrático, logo ela que sonhava em seguir carreira política, à mira do cano de um lunático e extremista.

“Vocês nunca vão entender. Só escute o que eu digo, certo?”, diz Kaja, no início, ao encarar a câmera, como se estabelecesse ali o pacto com o público que seguirá até o desfecho. Ato de cumplicidade, aproximação, chamada oposta à de Greengrass, atrás de explicações.

Kaja, na verdade, fala com a mãe pelo telefone. Parece falar com o espectador. A moça acredita estar segura na ilha, da qual não se foge senão por barco ou transporte aéreo. A ela, como aos outros, resta vagar, esconder-se, deitar sobre a terra úmida, tentar encontrar qualquer refúgio contra a mira do inimigo sem face.

Por essa terra apertada, fria e acidentada, vê-se o fracasso de um certo estado de liberdade, em um país ou continente talvez condenado a ser uma ilha fechada, vítima do horror. A humanidade de Kaja e toda força que pode oferecer não são suficientes a esse meio degradado, esse perigo moldado à ideologia nefasta.

Para Greengrass ainda há respiro, é possível vencer o horror. Para tanto, elege-se um protagonista idealizado, Viljar (Jonas Strand Gravli), alguém que o talentoso cineasta não tornará vazio por inteiro. O remédio ao extremismo é a justiça dos tribunais, o desabafo ao encarar, na mesma sala, o monstro, dessa vez para se declarar livre.

(Utøya 22. juli, Erik Poppe, 2018)
(22 July, Paul Greengrass, 2018)

Notas:
Utøya 22 de Julho: Terrorismo na Noruega:
 ★★★★☆
22 de Julho: ★★☆☆☆

Foto 1: Utøya 22 de Julho: Terrorismo na Noruega
Foto 2: 22 de Julho

Veja também:
Os dez melhores filmes de todos os tempos segundo Jean-Pierre e Luc Dardenne

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