As Herdeiras, de Marcelo Martinessi

Pela fresta da porta, mais de uma vez em As Herdeiras, Chela (Ana Brun) observa as compradoras dos itens à venda em sua antiga casa: talheres, móveis e objetos de arte. Falidas, ela e a companheira veem a saída das partes que remontam o passado. Sem esconder a tristeza, continuam ali, presas cada vez mais, sem crer na mudança.

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Inevitável, Chela precisa sair, lançada quase à força, ainda que ao acaso: com a prisão da outra, Chiquita (Margarita Irun), ela descobre que pode ganhar alguns trocados servindo de motorista a senhoras que gostam de jogos de baralho, de apostar. O mundo lá fora – após sua falência, seu isolamento – representa o desconhecido, inegavelmente o real.

O filme do paraguaio Marcelo Martinessi é feito de sombras e clausura em sua maior parte. O olhar às frestas dá o tom da obra, ao mesmo tempo que volta justamente a quem vê, Chela. Esse espaço de paredes aponta à ideia de proteção, pois a descoberta da protagonista tem a ver com seu estado frágil, com a falsidade de seu meio.

As recém-chegadas, as compradoras, compõem uma burguesia autofágica, predadora de objetos velhos, valiosos, de palácios antigos em que gente como Chela ainda tenta sobreviver. Não estranha que essa sobrevivência, ou tentativa, reduza-se às frestas, ou ao pequeno, ou à prisão – tudo o que a grande casa não deveria ser.

Primeiro há o problema do espaço, o que ajuda a entender a mulher ao centro, quieta, perdida, que terminará como alguém embriagado, sem chão, porque não compreende os próprios sentimentos. Não bastava sair: na jornada pelas ruas, com seu novo trabalho a bordo do velho carro que conserva lataria brilhosa, encontra outra mulher.

Vem o desejo estranho. A outra representa liberdade: fala do sexo com apetite, mas sem apelar. Ao contrário, Angy (Ana Ivanova) tem paixão, recorre à poesia, pede que a outra se atreva, “o culto que poucos professam”. A saída da casa grande é o atrevimento, como o trabalho, a aceitação das coisas como são, o embarque no mundo real.

Ao contrário de Chela, Angy tem história, ou apenas o que contar: a certa altura, relata o amor por um homem em um barco, as horas intensas que viveu com ele e outra mulher que dividiu com o mesmo. A liberdade do relato – da outra – confronta. Mas nem tudo se mantém: o homem do passado se casou, engordou, teve filhos – não é o mesmo.

Nesse mundo de armadilhas, fixa-se a verdadeira prisão: Chela não suporta o que vê ao visitar Chiquita na cadeia. Ao redor, mulheres gritam, celas apertadas, medo – ou tudo que não condiz com seu estado de aparente conforto, o de quem escolheu, até então, olhar através de frestas, na velha casa grande, antes de achar a saída.

(Las herederas, Marcelo Martinessi, 2018)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
O Cidadão Ilustre, de Gastón Duprat e Mariano Cohn

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