O Dia da Desforra, de Sergio Sollima

O pistoleiro de Lee Van Cleef passa boa parte do tempo perseguindo o homem errado em O Dia da Desforra. Espécie de teste, passagem à terra estranha na qual atiradores podem se tornar padres e belas prostitutas continuam a servir seus amores cegamente, mesmo enganadas.

Como Jonathan “Colorado” Corbett, Cleef incorpora a ordem, o modo texano de ser: para perseguir um bandido, fará qualquer coisa – até se converter em criminoso. É disso que trata o grande faroeste de Sergio Sollima: a obsessão pela ordem carrega, em sua essência, aquilo que nega.

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O diretor aproxima-se do exagero, chega, em momentos, perto do absurdo. Sua obra não é um faroeste convencional. A começar pelo herói, que não tem muito do mocinho – e, por isso, será reconhecido como criminoso durante a abertura.

Por ali, enquanto espera três pistoleiros e contempla um quarto enforcado, finge ser um vilão. Os recém-chegados, procurados pela justiça, acreditam nessa máscara. Cleef, por sinal, seria o antagonista no incrível Três Homens em Conflito, de Sergio Leone.

O bandido não demora a se revelar o herói. Para o desespero ou não dos perseguidos, ainda concederá a cada um o benefício do duelo: coloca à frente três balas, uma para cada vilão, para que se sirvam da luta justa, do enfrentamento. Os três terminam mortos.

É apenas o início de O Dia da Desforra. No subgênero “faroeste espaguete”, ou “faroeste italiano”, Sollima lambuza-se com seus códigos. Está ali o poder a todo custo, um pouco escondido, revelado no olhar dos texanos endinheirados. Estão ali os homens sujos, falastrões, alguns próximos da comédia, também os tiros certeiros.

A desforra volta-se aos mexicanos, à terra estranha invadida por Corbett – momento em que os verdadeiros vilões já estão do outro lado, postados para dar vida à linha do trem – o “progresso” – que deverá cortar ambos os países. A desforra serve ao oprimido cômico interpretado por Tomas Milian, perfeito contraponto a Cleef.

Perseguido pelo segundo, o primeiro faz o impossível para escapar. Dispensa pistolas, prefere facas e o jeito malandro, a forma como ora ou outra se faz inocente – ainda que, descobrirá o espectador, seja justamente isso, ou quase.

A ousadia vista em pequenos trechos, o aparente delírio (como na briga do bordel, ou na intimidade do padre com a arma de fogo), tudo conflui para a aceitação desse jogo admirável proposto por Sollima, com imagens grandiosas das diligências entre a lama, dos homens pelas rochas, depois, até chegar ao deserto e à corrida ao infinito.

À exceção de Cuchillo (Milian), o suspeito usual, o público conhece todos os outros – inclusive o barão atirador, austríaco com a lente presa entre os músculos da face, como que saído de um filme de Max Ophüls. Ele e Corbett deverão se enfrentar. Odeiam-se muito antes, graças à troca de olhares que forja animais entre supostos civilizados, na festa de casamento que une o desejo político ao financeiro, a expor o execrável.

(La resa dei conti, Sergio Sollima, 1966)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Dois faroestes spaghetti de Giulio Petroni

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