Bohemian Rhapsody, de Bryan Singer

Levado pela energia do tributo, o espectador deixa-se enganar. O homem entregue na tela é o que se imagina: o amoroso às vezes acuado, o gigante da voz, o gênio que se esconde atrás da“imperfeição” dos dentes saltados, do porte físico magro, o rapaz homossexual que viveu para ser incompreendido e terminar como lenda da música.

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O guia ao espectador de Bohemian Rhapsody é também seu maior problema: Freddie Mercury. Feito para agradar, e por isso sem graça. Feito do material que se espera: aquele que não se explica, que não se deixa ver, coberto pela massa do mito, esculpido como o Freddie Mercury esperado, talvez a personagem criada pelo próprio.

Distante, com olhos de curiosidade, um pouco infantis, cedidos na medida por Rami Malek, como se dissesse: “não tenho controle do que ocorre ao redor, sou vítima dos desejos”. Ou de certa “vontade de viver”, em um universo louco ao qual é lançado para se perder, imaturo, manipulado, destinado ao sofrimento.

Da direção de Bryan Singer ao roteiro de Anthony McCarten, a obra é moldada para agradar os fãs do Queen. Seu desenrolar é feito de situações conhecidas, com pouca ou nenhuma naturalidade, outra vítima da maldição que com frequência recai sobre cinebiografias: a impossibilidade de ousadia em um mundo de mitos e propagandas.

Nesse sentido, vem com as imagens a confirmação, nunca a confrontação. E outra vez é importante retornar ao protagonista: suas experiências homossexuais são sempre vistas como descobertas, quase nunca como entregas; à personagem, fica a impressão de culpa, e não apenas por trair a mulher que ama, vivida por Lucy Boynton.

Alguém dirá que Singer prefere a sugestão. Ainda assim, sugerir não implica criar uma peça para agradar. E se com Mercury vem a face do menino inocente e manipulável, logo se elege o vilão, homossexual ao lado, serpente a desviá-lo, interpretado por Allen Leech. Há sempre a sensação de que o protagonista tomou o lado errado, ao contrário dos outros membros da banda, que escolheram se casar. Seu estilo de vida é regado a festas e drogas.

Não demora para Mercury descobrir que tem Aids. Sua saída do consultório médico absolve, as luzes não deixam mentir: o cantor caminha por território divino, abertamente irreal, às portas do paraíso. No mesmo corredor, um garoto doente canta para ele. A música sobrevive, alento ao público que sofre com a morte anunciada.

(Idem, Bryan Singer, 2018)

Nota: ★★☆☆☆

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