Uma Noite de 12 Anos, de Álvaro Brechner

A experiência do cárcere agarra pelos sentidos. Na grande cela redonda, local improvisado para abrigar o preso, o espectador assiste ao caminhar em círculo pelo olhar da personagem, o som que perfura seu cérebro, a dor que a consome; em outro local, cubículo que não permite ficar em pé, assiste à sua redução ao nada.

Das parcas luzes o espectador passa ao seu estouro, ora ou outra, quando esses presos encontram o ambiente externo, o brilho do sol, o que só aumenta a ideia do momento raro, um curto sentimento de liberdade em Uma Noite de 12 Anos, de Álvaro Brechner, sobre a prisão de três revolucionários no Uruguai ditatorial dos anos 1970 e 1980.

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Experiência do cárcere que, a despeito da pouca mobilidade, não deixa perder o interesse, menos ainda o humanismo: há de se lidar com esse trio, com suas dores, e levar à emoção, na maior parte do tempo sem apelar. Há alguns golpes dramáticos manjados, como a música famosa que corta a experiência, ou o retorno ao passado pela imaginação, o que aproxima o preso da companheira que não vê há anos, agora ao seu lado, na mesma cela. Mas são poucos.

Em sua maior parte, o filme de Brechner sai-se bem na abordagem do tema: seus homens esfarrapados, esculpidos à pele suja, às feridas, descabelados como seres do paleolítico, ainda sorriem, tocam a pedra, ou a parede, para encontrar o canal para fora – e encontram. Dois deles desenvolvem uma linguagem de toque e, às batidas, conversam sem se verem ao longo de anos, avanço incessante para fugir dos exíguos espaços.

Um dos presos dessa ditadura é José Mujica (Antonio de la Torre), que se tornaria presidente do Uruguai anos mais tarde; os outros são o futuro escritor Mauricio Rosencof (Chino Darín) e Eleuterio Fernández Huidobro (Alfonso Tort) – cada um a desempenhar uma função.

E nenhum, em tela, parece ocupar peso maior. Todos como um, poderá argumentar alguém: unidos, representam as vítimas de um estado que apela ao sequestro, não à prisão ou ao julgamento; à morte imposta às mãos dos considerados inimigos, não por meio das próprias; pela privação do mais básico, fazendo com que sobrevivam de restos.

Mujica é o mais fechado. De fora vem apenas a mãe para visitá-lo. Não que seja pouco. Em cárcere, entra em processo de loucura, psicose, ao crer na perfuração de sua cabeça, na impossibilidade de parar de pensar. No vácuo, no nada, ou “apenas” na cela, cabe-lhe tal dificuldade: não há nada a fazer senão pensar. Por isso não há descanso.

Se Mujica representa o equilíbrio que se perde, o controlado que se deixa consumir, ou quase, Rosencof sintetiza bem o revolucionário de versos, apaixonado, que pede pelo direito à luz, a certa altura, enquanto urina com um capuz sobre a face, à beira da estrada; no caso de Huidobro, trata-se do esperançoso, quase um chapliniano.

Ainda que o trio seja movido pelo pathos, não é difícil reconhecer em Mujica o ethos, ou seja, a fala pregada a alguém confiável ou respeitado, o futuro líder máximo de uma nação. Por outro lado, Brechner acerta ao não torná-lo a figura de discursos prontos. É o contido, em muitos momentos o silencioso que vive em seu próprio universo.

Há no início de Uma Noite de 12 Anos um momento exemplar para pensar na clausura, quando, no interior do presídio, a câmera de Brechner gira sobre o próprio eixo, sem sair do lugar. É o panóptico, a arquitetura que possibilita ver, do mesmo ponto, tudo o que há ao redor. Nada mais que poder de controle, de vigilância, sobre os demais.

O filme é mais interessante em sua invasão às celas, menos quando escapa à imaginação dos homens. Entende-se a necessidade de fuga, de movimento. O isolamento reproduz o inferno, o nada ao qual o trio é reduzido, sequestrado para ser esquecido, cadaverizado, como se pudesse desaparecer com a História, que teima em retornar.

(La noche de 12 años, Álvaro Brechner, 2018)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Post Mortem, de Pablo Larraín

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