O Primeiro Homem, de Damien Chazelle

As mulheres com frequência servem ao mesmo papel em filmes sobre astronautas: são damas que esperam em casa, que cuidam dos filhos, enquanto os maridos viajam entre a escuridão, por espaços inabitáveis. A mulher de Neil Armstrong em O Primeiro Homem, Janet, tem algo a mais: ao longo da empreitada, ganha voz e força fora do comum.

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Isso se dá à medida que o homem fecha-se em sua obsessão, cada vez mais distante do “mundo real”: ele liga-se às máquinas, aos números, aos testes, à possibilidade de voar ao local em que nenhum outro chegou, a lua. À bola escura que enxerga da Terra, da grama verde de seu quintal, para ratificar o desejo de estar lá.

Louis, o primeiro, precisa de alguém que o faça olhar para trás, ver as partes humanas. O espectador também. Nesse sentido, a Janet de Claire Foy é essencial à história que, por algum milagre, escapa à pura exibição técnica, à parafernália, à mais outra investida no reino do som e da fúria a alguns milhares de quilômetros rumo ao infinito.

É preciso, de novo, sob o risco de parecer excessivo, retornar a 2001: Uma Odisseia no Espaço: se em 1968 Stanley Kubrick escapou ao vazio das máquinas com doses de filosofia, sem precisar recorrer às emoções dos homens (petrificados, à exceção do computador Hall 9000), Damien Chazelle precisa agora da mulher, para assim olhar para trás.

Para olhar para a família, para o lar que construiu com o homem de poucas palavras, para os filhos que pedem tudo e às vezes – crianças como são, por isso compreensíveis – produzem o indesejado, barulho, confusão. Coisas de família, do dia a dia, com a mulher ao centro.

Como indica o título, o homem tem sua importância, mas não é suficiente para fazer decolar esse produto cinematográfico classe A. O plano de voo de Chazelle depende tanto da personagem feminina quanto do drama que antecede a missão. Para Armstrong, chegar à Lua é a forma encontrada para enterrar a filha, sua vitória contra a morte.

É reconhecer, para além da grandeza expressa em imagens, a pequenez do homem no universo. Perto de uma cratera lunar ou de olho na Terra que, distante, surge pequena, o astronauta torna-se pouca coisa na imensidão escura. No entanto, é preciso voltar a uma colocação de Armstrong quando entrevistado pelos homens da Nasa: o verdadeiro tamanho do mundo, ou do espaço à frente, está sempre ligado ao ponto de vista.

O patrocínio americano à corrida lunar tinha fundo político. Era preciso derrotar a afronta soviética que levou o primeiro homem ao espaço. Para Armstrong, vivido por Ryan Gosling, tais questões pouco importam. O que está em jogo é sua luta – não sem o empurrão das máquinas – contra o que há de mais previsível em situações como essa: a morte.

(First Man, Damien Chazelle, 2018)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Gravidade, de Alfonso Cuarón

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