Irene, a Teimosa, de Gregory La Cava

A distância é pequena entre o depósito de lixo e os espaços frequentados pelos mais ricos em Irene, a Teimosa, comédia clássica que une o controlado William Powell à mimada e bela Carole Lombard.

O roteiro não deixa mentir: “A prosperidade está na esquina”, diz a personagem de Powell, Godfrey, mendigo convertido em mordomo. Como um homem chique que a certa altura precisa tocar a barba de Powell para ter certeza que se trata de um desvalido, o espectador tem motivos de sobra para duvidar de sua imundice.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Ela passa rápido. E Powell, à vontade, estará a circular em festas de gente poderosa, gastona, de pessoas exageradas que riem e bebem sem parar, que enxergam gnomos em suas manhãs de ressaca, que precisam de conselheiros para dizer o óbvio. É essa pouca distância entre o lixo e o luxo, sobretudo quando o ridículo põe-se do lado esperado, que faz de Irene, a Teimosa um perfeito exemplo do cinema de sua época. Ou o perfeito exemplo do espírito americano de sua época.

O mendigo em questão sabe o que é viver no lado oposto. Antes de ser o homem pobre de barba saliente, Godfrey era rico. Perdeu tudo e, com um novo terno, mais uma vez entre os abastados, encontra a deixa para recuperar seu dinheiro e empreender.

Vencer a distância entre lados será possível, claro, pois se trata do cinema hollywoodiano dos anos 30, em plena Grande Depressão, quando sonhos eram vendidos sem qualquer vergonha. O amontoado de latas e sujeira a céu aberto cede espaço para a passagem de moças ricas montadas em brilhantes vestidos de cetim.

Na Hollywood em questão, a menina ao centro, Irene (Lombard), podia se sentir atraída pelo homem errado (o mendigo) sem correr o risco de errar (afinal, ele é fino demais). É só uma questão de esconderijo, de voltas que levam ao esperado, sabe o público.

A comédia do diretor Gregory La Cava tem leveza e infantilidade, é ágil, com sofisticação e amostras da bobagem de um grupo no qual o mais interessante é o mordomo – como prova o amor da menina inocente, capaz de enxergar sua grandeza. E não será a única a se apaixonar por Godfrey. Lombard, com carne saliente, com seus pulinhos sobre a cama e forma fantasmagórica ao ser rejeitada, lega ao cinema clássico uma imagem tão poderosa quanto a de Jean Arthur nas comédias de Capra.

A química entre o casal é perfeita, também entre todos em cena: entre o pai nervoso com as contas da casa e sua mulher gastona e burra, entre as filhas, cada uma como um tipo de mulher (a loira e a morena), entre diferentes classes sociais.

Por curioso que pareça, Irene, a Teimosa não chega a ser uma história de amor ou farsa completa. A mudança, com a transformação do lixão em casa de shows, ao fim, dá o tom de esperança, como se fosse possível escapar da sujeira, superar a Depressão que recaia sobre todos.

Em meio à comédia de regras próprias, feita à forma da screwball desse mesmo tempo, o filme não pede para ser levado a sério. Supera a relação entre o casal, que termina mesmo como brincadeira, quando Irene não tem mais dúvida sobre sua paixão, quando Godfrey tem todas as dúvidas sobre esse relacionamento. A essa altura, esse é o menor dos problemas: o amontoado de lixo transforma-se em festa.

(My Man Godfrey, Gregory La Cava, 1936)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
A Felicidade Não se Compra, de Frank Capra

2 comentários

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s