Marcas da Violência, de David Cronenberg

O retorno de Tom Stall a Joey Cusack demora para se concretizar, ainda que, a certa altura de Marcas da Violência, fique claro que o primeiro já foi o segundo. Fala-se de retorno, mas talvez seja uma transformação: após tanto tempo na pele de Tom, pacato homem de família de uma pequena cidade americana, não há motivos para crer ser mais ninguém.

O que simboliza o retorno, ou a aceitação de suas raízes, está em uma das sequências finais do filme de David Cronenberg. É o momento em que o protagonista fica cara a cara com o irmão, o mafioso Richie Cusack (William Hurt), e encosta – não sem certa trava – a cabeça no outro, como se houvesse ali uma eterna ligação.

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O mero toque dá conta de resumir o que o público precisa saber sobre Tom, para encerrar de vez o mistério desse homem fechado, camaleônico: Joey é um demônio que o pai de família em questão tentou trancar em um porão, do qual diz ter se livrado após algum tempo no deserto, para depois vestir a máscara disponível, a de Tom.

Não tem jeito: em Cronenberg tudo retorna à carne, ao contato físico, ainda que o máquina seja aqui menos importante do que em outros filmes passados do diretor. Os carros e as armas estão por ali, mas incapazes de emergir com peso nessa pequena cidade americana, espaço que Tom escolheu para “matar” Joey, ainda que tenha falhado.

O outro retorna em momento-chave, quando Tom ataca dois criminosos que assaltam sua lanchonete, hora em que o comércio era fechado. Recorre, em reflexo, a Joey: golpeia a face de um bandido com a jarra de café, toma sua arma e atira no comparsa. Salva todos que estão por ali, funcionários e dois clientes. Torna-se herói.

A exposição à mídia faz com que os demônios de Tom retornem, a começar por Joey. Na mesma lanchonete, um mafioso de face desfigurada (Ed Harris) passa a chamá-lo pelo antigo nome. Falam em um “Joey louco”, alguém que gostava de matar. A lenda ataca o espectador, que assiste à súbita violência desse mesmo homem comum.

Em suma, os monstros retornam, como preconiza a filha do protagonista em sua primeira aparição, momento em que o público é lançado ao interior do lar da família: a menina de cachos louros acorda assustada e diz ter visto monstros em seu quarto. O pai é o primeiro a acolhê-la. Logo vem o outro filho (Ashton Holmes), também a mãe (Maria Bello).

A pequena cidade tem seu jeito acolhedor, seu policial velha guarda, seus garotos desbocados que vestem jaquetas do time de beisebol local. Tem a avenida na qual os jovens encontram-se para fazer coisa alguma, beber e tal. O filme reforça, sobretudo em ambientes fechados, o quanto essa velha América é idealizada: as luzes amarelas e o calor que transmitem oferecem um espaço quase irreal, contraponto à violência que vive da surpresa.

Pois antes de ser atacado pelos monstros do passado, Tom será pressionado pelo medo real, pela vida real que bate à porta de qualquer local, qualquer ponto de sua nação: não há uma cidade para se ver livre de tudo isso, dos criminosos, de suas armas, dessas pessoas que, diferentes de Tom, ou de Joey, não encontraram consciência alguma pelo deserto.

Marcas da Violência é um grande filme sobre aceitar o passado, as raízes, e perceber o quanto tudo isso, ora ou outra, expele o tampão sob o qual permaneceu guardado por algum tempo. Filme em que o desespero do homem ao revisitar seu monstro leva, em cena importante, ao sexo com a mulher na escada. A violência não está apenas do lado de fora, mas também na esfera íntima, na relação de amor entre o casal central.

Como Tom, ou Joey, ou ambos, Viggo Mortensen tem um grande momento. Sua insistência em negar o homem que deixou – que acreditava ter matado – não chega a ser mentira. Na verdade, tem a ver com crença. Ele apostou alto no lado bom das pessoas, na vida melhor, na paz, até o instante em que dois assassinos cruzam a porta de sua lanchonete.

(A History of Violence, David Cronenberg, 2005)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
A inspiração de Cronenberg

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