O duelo entre carne e espírito em dois grandes filmes de Kaneto Shindo

As duas mulheres de Onibaba – A Mulher Demônio sobrevivem do que conseguem tirar do corpo dos mortos, dos homens que percorrem a vegetação, que travam uma guerra não tão distante. A senhora de mechas brancas e sua nora jogam os corpos desses guerreiros em um buraco. Reinam nesse espaço em que tudo vale para sobreviver.

Outras duas mulheres, em O Gato Preto, vivem pouco, e sobrevivem como espíritos: outra vez, são elas contra eles, dessa vez não mais no terreno da carne. Elas são mortas logo no início. Em vida, não dizem uma palavra sequer. Estupradas, são deixadas ao fogo, no incêndio da casa de madeira e palha. Suas almas retornam para se vingar.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Os dois filmes em questão foram escritos e dirigidos por Kaneto Shindo. O primeiro é de 1964, o segundo de 1968. O primeiro é sobre mulheres selvagens que, isoladas, rendem-se à carne – neste caso, à fome e ao sexo; o segundo é sobre mulheres espíritos que surgem aos samurais, para se vingar, enquanto oferecem abrigo e sexo aos viajantes.

Nos dois, as mulheres opõem-se aos homens, a carne ao espírito. São os homens que atrapalham o equilíbrio feminino, ao mesmo tempo a parte que alimenta essas mulheres diferentes em ambos os filmes. O que elas querem, humanas ou espectros, é colocá-los abaixo, no buraco, ou no limbo, no meio da floresta com as gargantas cortadas.

A guerra dos sexos, presente à primeira impressão, logo dá vez às misturas. Ao contrário dos sustos, tão comuns no cinema de terror da atualidade, Shindo oferece rostos, ou detalhes destes, ou figuras que não precisam de muito para aterrorizar: o que se tem em Onibaba é, primeiro, mulheres esfomeadas ou queimando de desejo; em O Gato Preto, belas mulheres em trajes impecáveis, brancos, de aparência e modos perfeitos, mas que ocultam monstros.

Ver esses filmes em sequência é perceber o quanto se refletem e se refratam ao mesmo tempo. Onibaba é sobre a carne, ou sobre como a carne vence o espírito. A certa altura, a nora da velha mulher entregar-se-á ao amigo do marido morto, aquele que retorna, o pior dos seres, ainda assim a abertura à experiência do sexo. Para encontrá-lo, ela ousa cruzar a floresta, repetidas noites, e encarar o que pode ser um demônio.

O Gato Preto revela o oposto: é sobre o espírito, ou sobre como o espírito vence a carne. Investe antes no selvagem, nos homens desesperados que surgem dos arbustos, invadem a casa, saqueiam, comem, estupram; depois segue à floresta de contornos mágicos, de luzes que cortam árvores, no meio onírico em que o espírito oferece-se aos passantes.

São homens prestes a morrer. As mulheres espíritos, por ali, celebram a vingança. Só não contavam com o retorno do filho de uma delas, marido da outra, justamente convertido em samurai. Os espíritos ainda têm sentimentos, consciência, e o retorno do rapaz expõe a passagem do terror à história de amor, o que não dura muito.

Em Onibaba, as mulheres vivem (e sobrevivem) sozinhas. É o homem recém-chegado, falastrão, que atrapalha o convívio. Ambas o desejam. Apenas a mais nova será levada aos seus braços, em escapadas noturnas, à medida que a outra – sentindo-se rejeitada – arquiteta seu plano de vingança. É quando se passa pelo espírito da floresta.

A senhora – cuja face demoníaca, maquiada, contrapõe a verdade e a sexualidade do próprio seio que deixa aparecer – usa a máscara que pertencia a um guerreiro que matou, também lançado no buraco. O tal guerreiro estava preso à máscara e dizia ter um rosto belo. Após sua morte, o objeto é retirado não sem dificuldade, grudado como está. A senhora faz da máscara sua arma contra o desejo da outra pelo homem que mora nas redondezas, e se monta como o demônio (o misticismo) que talvez não exista por aqui.

No entanto, Shindo ainda deixa dúvidas: por que a máscara cola-se a essas faces? Seria o indicativo de que esse universo físico – de carnes expostas, deglutição animal, assassinatos e sexo – ainda guarda algo místico? A máscara é a presença do monstro evidente, que não se esconde, personificado na imagem irreal, a do suposto demônio.

O contrário, portanto, do animal que quase não aparece, e que vive sob as vestes brancas – outra vez, impecáveis – das mulheres fantasmas de O Gato Preto. Como se vê ao longo do filme, elas escondem justamente as formas do animal, do gato, os pelos pretos nos braços, quase como lobisomens que caminham lado a lado a esses espíritos.

A senhora de Onibaba grita, ao fim, em desespero, as palavras que resumem o filme: “Não sou um demônio, sou um ser humano”. Afirma, em dor, a prevalência da carne. Seu rosto está desfigurado, não mais coberto pela máscara. Ao contrário do espírito de O Gato Preto, levado aos céus, ao escuro, ainda sob o rosto feminino, a celebrar a superioridade.

(Onibaba, Kaneto Shindo, 1964)
(Yabu no naka no kuroneko, Kaneto Shindo, 1968)

Notas:
Onibaba – A Mulher Demônio:
★★★★★
O Gato Preto: ★★★★☆

Foto 1: Onibaba – A Mulher Demônio
Foto 2: O Gato Preto

Veja também:
Os dez melhores filmes de Mario Bava

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s