Gauguin: Viagem ao Taiti, de Edouard Deluc

O som da água da chuva penetra a face de Vincent Cassel pouco depois de alguém discursar, em um bar, durante uma festa libertina, em Paris. O homem em questão aponta ao protagonista, Paul Gauguin, para falar de sua coragem e, mais ainda, louvar o que ele, em sua escolha, revela a todos: o homem é um selvagem.

Ainda no início de Gauguin: Viagem ao Taiti, esse discurso – ponto em que a aparente inveja traveste-se de reverência – aponta justamente ao que o protagonista, por toda a obra, deverá combater. O filme de Edouard Deluc é sobre um homem que luta para não se revelar um selvagem à medida que se debate com sua arte, a pintura.

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É no “fim do mundo”, ainda nas palavras do homem que discursa, que Gauguin busca um ambiente para seguir pintando. Aos amigos de ofício, em Paris, o artista diz o quanto aquele espaço ao redor é sujo, o quanto – em outros palavras – continuam ali escravizados sob a imagem de um suposto mundo evoluído, de pessoas livres.

O pintor e protagonista escolhe o Taiti. O que introduz o espectador nesse novo universo não é a natureza, mas o seu som, o que pode ser descrito também como o som da transformação, da passagem. Neste caso, o som da chuva, dos trovões, na primeira sequência de Gauguin no outro país, já em refúgio, a cabana feita de madeira e folhas.

A sequência introduz e explica a personagem e o filme em questão: o protagonista tenta enxergar suas pinturas, sua arte, à luz de velas, ao som da água que cai, incessante. O homem luta para pintar em meio à tempestade, à quase escuridão. Produz, entre sombras, justamente o que o retira do estado selvagem, o que o faz humano.

Não demora para que encontre outras pessoas. Logo, uma companheira, uma jovem chamada Tehura (Tuheï Adams). Depois de um tempo no hospital, com problemas no coração, Gauguin perambula pela mata até terminar em uma aldeia. A jovem vê-se encantada. Sua família oferece-a ao visitante acidental, que a leva para sua pequena cidade.

A relação começa bem, depois vêm as complicações. O filme perde força ao apostar na vida a dois. A relação não funciona. Mas talvez não se deva esperar química dessa união. São seres feitos para não funcionar, em um filme cujo protagonista será colocado à margem dessa nova civilização. Não entrará nas igrejas, não construirá símbolos religiosos, não conseguirá evitar a aproximação da mulher a outro homem.

Nesse sentido, Viagem ao Taiti mostra como o artista pode parecer o mais humano entre todos e, ao mesmo tempo, o mais excluído, o mais complicado, aquele que viaja para não encontrar seu lugar no mundo. Em cena, o homem que faz o espectador até acreditar na presença do selvagem, um Cassel descabelado, com barba a fazer, que transpira sobre as pinturas, que não para nunca, como que gritando em silêncio.

(Gauguin – Voyage de Tahiti, Edouard Deluc, 2017)

Nota: ★★☆☆☆

Veja também:
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