Eu, Olga Hepnarová, de Petr Kazda e Tomás Weinreb

A menina branca, tcheca, bela, um pouco magra demais e de cabelos lisos chapados, à altura do queixo, traz argumentos curiosos perto de ser condenada à morte: segundo ela, seu tipo foge à forma dos condenados à forca, pois é branca e nascida naquele país, a Tchecoslováquia. Com seu crime, ela deseja chamar a atenção.

O argumento pode ser válido, mas é resultado de um ato bárbaro. A história de Olga, a protagonista, é baseada em situações reais. Excluída, atacada por tantos, ela julgava ser vítima de bullying. Em Eu, Olga Hepnarová, o espectador conhece mais sobre a menina, a vida e o drama por trás da assassina – sem nunca absolvê-la.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Os cineastas Petr Kazda e Tomás Weinreb tomam distância necessária. Nesse trabalho interessante, colocam a protagonista em um estado em que parece flutuar, no qual está presa a um universo paralelo, às vezes sem ninguém ao lado. É um filme de silêncios sobre uma perdedora que decidiu se vingar da sociedade.

Olga, na pele de Michalina Olszanska, não tem muito a dizer. Fecha-se em sua frieza, refugia-se em uma manta em sua cabana no meio da mata, sem aquecedor, ou nos cobertores do albergue de seu trabalho. Passou por tratamentos, voltou a eles, pediu ajuda a algumas pessoas, foi ignorada pela própria família.

O filme termina justamente com a imagem dessa família à mesa, a forma da obediência, da suposta – mas falsa – ordem familiar contra a qual se coloca Olga. Sua fúria quase sempre contida, anterior ao crime, revolve àquelas pessoas que não dialogam, que preferem a maneira paralisada, em dias de aparente repetição.

Na mesma mesa, Olga confessa seu desejo de ir embora. Vai. E não encontra saída. A fotografia em preto e branco de Adam Sikora sufoca a mulher que mais parece menina, cujas investidas a outras mulheres – e ao sexo – são, naturalmente, como ela, gestos selvagens. Não poderiam dar vez à delicadeza. A proximidade ao amor encerra-se rápida.

As imagens colocam Olga entre gigantes, à frente de paredes brancas e frias, na antiga casa de corredores enormes, sem nunca encontrar espaço. Toda a dor que o ambiente reserva ainda assim não será capaz de inocentá-la. O anjo aproxima-se do demônio enquanto tenta encontrar o lado racional para seu ato: ao invés de colocar fim à própria vida, Olga não dá aos outros a possibilidade de esquecê-la: resolve dar fim à vida de algumas pessoas, desconhecidos que atropela com um caminhão.

A leitura de sua carta, pouco antes de cometer o crime, é dolorosa. Ela diz não ter amigos, e que nunca terá. Diz que a medicina psiquiátrica para jovens é inútil, afirma estar mais decrépita que uma viciada em drogas. Ainda que as imagens sejam poderosas, o espectador fica de mãos abanando quando se trata da fechada personagem-título.

A obra pode ser definida como um grito de revolta de uma personagem que não foi ouvida, ignorada pela família e pelo sistema. Não se trata de justificar assim os atos da menina, ou da mulher. Sua jornada – cheia de quedas, de mal-estar – põe em foco o anjo malvado que aceitou a própria morte, não sem pedir ao advogado que não fosse apontada como insana.

(Já, Olga Hepnarová, Petr Kazda e Tomás Weinreb, 2016)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
As melhores atuações de 2016

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s