Todo o Dinheiro do Mundo, de Ridley Scott

O verdadeiro protagonista é o dinheiro. Chega a ser irônico que, em Todo o Dinheiro do Mundo, ele demore um pouco para aparecer como papel. De resto, está em todos os cantos: no navio gigante, metálico, construído para transportar petróleo; no prédio que atravessa as nuvens; no palácio de paredes forradas por quadros caros, de cômodos escuros; sobretudo, na face de J. Paul Getty, o bilionário vivido por Christopher Plummer.

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Não se fala apenas de bilhões ou milhões. Os tostões também têm espaço no filme de Ridley Scott, e são eles que causam espanto. Em cena, o bilionário insiste em citar as pequenas economias que fez, as pequenas porções que tirou dos outros com golpes de esperteza, escolhas como lavar as próprias roupas para não gastar com lavandeira.

O filme de Scott é sobre o sequestro de um dos netos do velho e sobre os desdobramentos da escolha de não pagar a bolada pedida pelos criminosos. O argumento de J. Paul Getty é levado aos microfones da imprensa: com tantos netos, há um certo perigo que outros sequestros venham a ocorrer, em efeito dominó.

Desculpa, claro, quando se chega àquilo que o filme realmente aborda: a maneira como o ausente dinheiro tem importância para o protagonista feito coadjuvante, homem no fim da vida que caminha por seu palácio, sozinho, para agarrar uma de suas pinturas que custa milhões, para se agarrar a algo valioso em seus instantes finais.

Evoca Cidadão Kane e o drama do homem solidário, ainda que sem tanto aprofundamento, em outro espaço que poderia ser chamado de Xanadu, ou que remete àquelas velhas construções babilônicas em que reis escolheram morrer. Getty prefere a matéria que crê ser imortal, não os seres de carne e osso.

Em suma, prefere a arte, as estátuas, o dinheiro. Prefere o que pode durar – desde que bem guardado. É feito desse pensamento acumulador, não necessariamente o do capitalista aventureiro. É seguro, frio, alguém que fez poder à base do gesto de velhos líderes, das conquistas, das coisas que juntou e com as quais, sozinho, escolheu morrer de braços dados.

Na dificuldade de chegarem ao montante que o velho possui, no momento em que pedem o resgate do neto, os sequestradores dão a frase levada ao título: ele pode pagar porque tem “todo o dinheiro do mundo”. Mas não terá, neste caso, os 17 milhões de dólares solicitados.

Entram em cena a mãe do menino (Michelle Williams) e um braço direito do bilionário (Mark Wahlberg), incumbido de participar das negociações e trazer o garoto de volta. O jogo de Scott inclui a ocultação do dinheiro, trocado pela face odiosa que salta ao público: sempre o velho Getty, o articulador, homem de pedra, de quem não escapa uma só nota em vão.

Nesse filme pouco emocionante, o culpado é o homem, não o dinheiro. Ou, mais ainda, a culpa recai à forma como esse dinheiro é utilizado. Qual a finalidade de tanto se não pode ser gastado? É o que questiona a mãe, a certa altura, em uma das vezes em que é levada à mesa de negociação com Getty, então decidido a ganhar algo com o sequestro.

Nas passagens pelo passado do velho homem, em suas conquistas, resta o olhar ao futuro, àquele deserto do qual deverá extrair quantidades volumosas de petróleo. Traduz-se ali, no semblante, o poder do dinheiro. Tudo o que vem depois passa por esses olhos. Um ser repugnante abraçado à sua fortuna, sem um velho trenó de madeira a lhe ocupar a mente.

(All the Money in the World, Ridley Scott, 2017)

Nota: ★★☆☆☆

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