A Maldição do Demônio, de Mario Bava

O espectador pode escapar aos cantos, a qualquer atrativo (e são vários) de A Maldição do Demônio, o primeiro filme inteiramente dirigido por Mario Bava. Dificilmente se despregará da atriz Barbara Steele, em duas personagens: a bruxa e, séculos à frente, a garota assombrada, seu espelho, moça de beleza única.

Há atrizes que não precisam de muito, dispensam grandes interpretações. É o caso de Steele, inocente ou demoníaca, prestes a ter o rosto preso a uma máscara forrada de pregos ou o corpo derretido na fogueira. Ao espectador, Bava expõe seu olhar: a câmera aprofunda-se na máscara com pontas em seu interior.

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Seu começo e fim não são os melhores. Na moça, sexualidade e santidade caminham juntas: Bava apresenta seu crucifixo – a servir de arma contra o Diabo, seu reflexo – próximo aos seus seios fartos, no corpo que condena os homens a observá-lo.

Seu olhar amedrontado, como o de uma criança, seu rosto quadriculado, cada parte que compõe alguém que pode ser dúbia, que pode ser definida. Quando surge com dois cães, momento em que encontra os viajantes pela primeira vez, o espectador não sabe se vê a mulher frágil, fruto de uma dinastia apagada, ou o Diabo em pessoa.

É o principal enigma desse filme extraordinário – feito com poucos recursos, com muita imaginação. Os espaços do grande castelo – que de grande não tem nada – são frágeis, ocupados por quinquilharias. Assemelha-se ao castelo de Os Vampiros, filme de 1957 dirigido por Riccardo Freda e finalizado por Bava.

Bava lida com um mundo aos pedaços, em pequena produção, sem que precise se explicar ou parecer rico: fala justamente da aristocracia decadente que ainda precisa recorrer aos seus labirintos, às suas fotos empoeiradas de gente morta (e assustadora), às suas passagens secretas, às tumbas não tão distantes.

Sequer o monstro – ou os monstros – será definido. Trata-se de um filme de vampiros, demônios ou espíritos? Talvez tudo em uma única história. Importa mesmo o duelo com o sobrenatural. Não há dúvidas de que os médicos são céticos, o que explica o desejo de confrontar lendas e seguir mata adentro, pelo caminho perigoso.

O destino de ambos está selado. Terminam atacados por espíritos e bruxos. Os atores não empolgam. Há diálogos em excesso. O rosto de Steele, atraente, destoa dessas formas manjadas, em uma maquiagem igualmente defeituosa em determinada altura e, como diriam os fãs do macabro, a realçar o clima maldito que se pretende.

A abertura é poderosa. A bruxa, rodeada por algozes, é condenada à morte ao lado do homem que ama. Tem a máscara do Diabo martelada à face. Promete voltar. Séculos à frente, médicos acidentalmente liberam o monstro quando param à porta do castelo aos cacos, enquanto, curiosos, observam suas tumbas, cercados por cruzes, teias de aranha e morcegos. Bava sintetiza o terror. A bruxa retorna em busca de vingança.

O clã já está destruído. O pai desespera-se ao perceber que a pintura da parede mudou de forma. O filho e a filha (Steele) querem não acreditar nesse mal e logo são consumidos, carregados, aos socos e pontapés contra os monstros.

Bava é um mestre na composição do chamado “clima”, o que antecede a consumação do mal ou a exposição do monstro em questão. Uma sequência a destacar: a caminhada da menina, pela noite, rumo ao celeiro no qual está a vaca a lhe servir o leite. O vento, as sombras, as árvores. A câmera, colocada pouco abaixo do rosto da atriz, em contra-plongée, fornece seu pavor, seu vacilo, seus passos atentos por terreno arenoso.

A mesma menina verá, depois, a carruagem fantasma que sequestra um dos médicos, verá um corpo no rio, e seguirá com a turba ao castelo. A multidão, por sinal, retorna para dar fim à bruxa, no encerramento, sem que alguém precise se desgastar e matá-la. Trocam a máscara de pontas pela fogueira. De novo, a selvageria.

(La maschera del demonio, Mario Bava, 1960)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
O Alerta Vermelho da Loucura, de Mario Bava

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