Começo de Primavera, de Yasujiro Ozu

A sinopse atribuída não raro engana. À cópia de Começo de Primavera, em DVD no Brasil, segue o texto: “Shoji, um jovem assalariado, começa um romance com uma colega de trabalho, o que acaba provocando sua separação”. É verdade que o filme trata de adultério, também de crise no casamento. Por outro lado, vai muito além.

O assalariado, sim, é o ponto central, o rapaz de vida aparentemente repetitiva – ainda que repetições sejam comuns nos filmes de Yasujiro Ozu. A completar: repetições que não terminam perfeitas, que não se reduzem a cópias. São semelhanças: suas personagens acabam retornando sempre aos mesmos afazeres, o que as limita à vida real.

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O assalariado em questão, Shoji (Ryô Ikebe), foge sem perceber, a exemplo dos amigos de trabalho. Não faz mais do que fazem os outros. Aos olhos dos demais, carrega certo prestígio, como aos amigos de bebedeira com suas próprias especialidades. Shoji, como ele próprio confessa, não é especialista em nada. “Se eu for demitido, morrerei de fome.”

As lamentações continuam, o que ajuda a entender a que ponto Ozu deseja chegar: “Trabalhadores assalariados são muito baratos. Apenas um em mil se torna diretor.” Começo de Primavera é sobre a consciência desse assalariado, sobre o ponto em que ela já bateu, já o torceu, já o fez lamentar: é sobre o sentimento de uma vida perdida.

O filme começa quando esse homem já vive nesse círculo de problemas silenciosos, sob a fachada da vida comum: Ozu nunca deixa que o drama exploda; ao contrário, trata da erosão da sociedade com calma, à aparente quietude que não deixa ver o mal que consome. Ozu prefere o comedimento, figuras simples submetidas à lenta passagem do tempo.

Como os amigos, o assalariado corre para fora do trabalho quando pode, ou para fora de sua própria casa. O casamento perdeu a graça. Ao chegar em sua moradia simples, não beija a mulher. Os gestos são automáticos, frios. À rua, ou ao parque, ou à estrada, à beira-mar, encontra um pouco de felicidade. Em um momento mágico, ele e uma amiga embarcam na carroceria de um caminhão. Ozu foca-os sorrindo, olho ao nada.

Esse homem, sem dizer, reconhece-se como pequena parte, e esta é a tragédia do homem simples, um entre tantos que lotam escritórios em um Japão supostamente feito ao progresso, à inevitável pujança da qual Ozu naturalmente se revelava desconfiado. Outra vez, não é preciso gritar: lá estão as repetições, as chaminés que se multiplicam, as salas padronizadas, mais tarde as escapadas a restaurantes para beber e esquecer o dia passado.

Para fora das cidades, perto do mar ou do campo, o destino final nunca será mostrado: esses assalariados apenas seguirão sem chegar a lugar algum. É em uma dessas caminhadas que Shoji aproxima-se de outra mulher. Não consegue esconder os pecados da esposa, que encontra batom em sua roupa. A certa altura, sem dizer com clareza, ele confessa. A esposa vai embora. Sozinho, ele vê a sujeira de sua moradia acumular.

Nem ele nem a amante nem a esposa serão julgados. Mantêm-se todos no plano em que se integram ao coletivo, em que fazem parte de algo maior. Se não chega a explicitar o trágico, Ozu alimenta-o pelos sinais que cruzam a tela, como o amigo acamado que apenas queria um pouco de companhia e, para dormir, tomou remédios em excesso.

O amigo que morre por não ter ninguém, ou por não chegar àquilo que desejava, foi consumido pela doença inominável. No filme de Ozu, ela plaina, vive, é sentida em momentos vários. Muitos desses assalariados, como Shoji, lutaram na guerra, viram-se sem caminho, terminaram em um escritório, especialistas em coisa alguma.

(Sôshun, Yasujiro Ozu, 1956)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Flor do Equinócio, de Yasujiro Ozu

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