Os Irmãos da Família Toda, de Yasujiro Ozu

A desintegração da família Toda encontra seu oposto ainda na abertura, na união de seus membros para posar para uma foto, no dia do aniversário do patriarca. Como se sabe, as imagens podem mentir: a foto reproduz uma ideia de família, tradição, obediência.

As personagens de Yasujiro Ozu não são radicais. Seu drama nunca é excessivo. Ainda assim, como se vê em Os Irmãos da Família Toda, de 1941, o embate entre parentes ganha intensidade como poucas vezes se viu em sua filmografia.

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O tema do diretor é a família e suas relações – quase sempre contidas. Há membros que se calam, que preferem não enxergar os problemas ao redor, como é o caso da viúva e matriarca dos Toda; em contraste, o mesmo filme apresenta o filho que se mudou para a China e, mais tarde, retorna para confrontar os irmãos.

A situação seria vista no trabalho mais famoso de Ozu, Era Uma Vez em Tóquio: os filhos, preocupados com suas vidas, negam os pais, colocados aos cantos. Aqui, negam a mãe viúva. Apenas uma filha passa a cuidar dela e, em situação também vista outras vezes nesse cinema, evita o casamento para se dedicar à mãe.

Ozu tem ritmo próprio. A abertura de Os Irmãos traz planos de localização, com imagens da casa e a preparação para a fotografia em família. Em outros casos, à frente, há seus conhecidos planos intermediários, nos quais as personagens não percorrerão ou serão vistas nesses espaços. Essas imagens obedecem à lógica da narrativa de Ozu, evitando a fusão abrupta de situações e tempos.

Ainda sobre a abertura, o aparente vazio dá vez à vida a distância. Criados e o fotógrafo preparam o cenário: é o início da formação de uma imagem, do retrato da família, depois confrontado pela negação e arrogância de seus membros.

As filhas, no interior da casa, conversam sobre a idade dos pais. Os irmãos reúnem-se, ano a ano, para o aniversário do chefe da família. Essas lembranças não reforçam neles, depois, a necessidade de união: talvez a individualidade esteja tão presente em uma nova vida moderna – longe do antigo Japão visto na casa do senhor Toda, ou na família da foto – que o passado torna-se vago, distante.

Os rituais são inegáveis. E, como se sabe, o próprio Ozu era ligado à família, sobretudo à mãe. O filme foi lançado após um intervalo de quatro anos em que o cineasta ficou sem filmar. Ele havia sido convocado pelo Exército Imperial Japonês para servir dois anos na China, na Segunda Guerra Sino-Japonesa. Depois, em 1943, foi convocado a lutar na Segunda Guerra. Com o fim do conflito, ficou preso até 1946.

Como o senhor Toda, Ozu morreu no dia de seu aniversário. Outra personagem do filme talvez evoque o próprio cineasta: trata-se justamente do filho que vai para a China para trabalhar e, em seu retorno, critica os irmãos, que colocaram barreiras à presença da mãe em suas casas. Ele decide não se casar. Diferente dos outros, prefere viver só.

(Todake no kyôdai, Yasujiro Ozu, 1941)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Vídeo: Yasujiro Ozu (Parte 1)

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