Popeye, de Robert Altman

A personagem forte, de antebraços cheios, perde-se no universo frágil. É como um filme clássico, talvez pela necessidade do diretor, Robert Altman, de retornar à forma que fez a glória de gigantes do cinema mudo. À forma que, em Popeye, funciona em partes, mais pela graça do que pelo andamento da trama, sempre a escapar.

É o que torna o filme difícil para o grande público: Altman, um autor, fica entre a indústria e suas necessidades e a forma de seu cinema, à qual ele, outra vez, é fiel. Não estranha a constatação, por consequência: Popeye é seu fracasso repartido, parte algo, parte outra coisa, e, no fim, talvez nada mais que diversão sem muita graça.

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Outra vez, é um filme sobre o grupo, mais do que sobre o indivíduo. O louro marinheiro Popeye é apenas um guia ao espectador, passagem àquela pequena vila perdida, presa às rochas, à beira do mar de Malta que pretende reproduzir os Estados Unidos dos negócios, de certa gente bondosa, de cobradores de impostos.

Às pedras prende-se o capitalismo que nem sempre dá as caras, vencido, é certo, pelo heroísmo do marinheiro que por ali aporta: será ele o responsável por lançar o cobrador ao oceano, para a alegria do povo que não aguenta mais pagar impostos. É ao povo, àquela gente vibrante, que o filme volta-se, e é nesse ponto que soa interessante.

A acidez comum a Altman não escapa nem mesmo a essa produção robusta, nascida para ser mais um arrasa-quarteirão do cinema americano. Dessa estranha fusão nasce um erro, mas um erro com assinatura, com autor. Não se nega: Altman não era o realizador ideal a tal empreitada. Com ela, faz o que pode, tenta ser fiel a si mesmo.

Vale notar como ele foge dos closes, dos planos fechados, sempre recuando, sempre em movimento, de um lado para o outro. Soa bagunçado. Os cenários caros, em toneladas de madeira, aparecem com dificuldade. Altman faz toda essa “riqueza” parecer um velho filme de estúdio em que as estruturas tombavam sobre Keaton ou Chaplin como folhas de papel.

Por mais curioso que pareça, é esse cinema que Altman desejava fazer. Não se pode culpar um autor por permanecer – aqui parcialmente, ressalva-se – fiel à sua forma. Os estúdios envolvidos na empreitada – da personagem famosa vinda das tiras em quadrinhos de E.C. Segar – desejavam o “filme certo” para o “público certo”. Naufragou.

Questões externas à parte, a obra salva-se pela alegria, pelo descomprometimento típico do cineasta, pela ideia de que tudo aquilo não pode fazer sentido – e de que tudo só atinge alguma graça porque não faz. É Altman lutando para ser o mesmo, sem o mesmo brilho, mas em avanço constante para retirar algo engraçado de seu Robin Williams como Popeye, em busca do pai, com o filho que acaba de encontrar.

Em um barco, à frente da cidade, está o gigante barbudo Brutus (Paul L. Smith), que grita para que seja cumprido o toque de recolher. É quando todos apagam as luzes. Esse homem malvado comanda a cidade e talvez seja, ao lado do pai de Popeye, o resquício do universo adulto que se impõe sobre as crianças que ocupam os cenários.

Não por acaso, a personagem-título procura pelo pai que perdeu nesse reino feito à infância. Termina nessa comunidade em que tudo ocorre, em que tudo se resolve, como em um desenho animado, e por ali se depara com a pouco agradável – como tantas personagens de Altman – Olivia Palito (Shelley Duvall). Nem romance nasce desse encontro.

O público – entre os desvios do realizador, entre um “filme de entretenimento” que não cumpre seu papel (ainda que produtos feitos apenas para tal finalidade invariavelmente não prestem) – tem razão em reclamar. Popeye é algo estranho cujos pontos altos vivem nos detalhes, não no todo. O cinema do grande diretor, nesse caso, mora nos detalhes.

(Idem, Robert Altman, 1980)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
O sonho da Nova Hollywood

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