Entre piadas e corpos dilacerados, vale-tudo no reino dos super-heróis

A brincadeira toda é posta às claras, sem vergonha, sem meias-palavras: Deadpool, o herói que faz tudo para ser diferente dos outros, fala dos clichês da cultura pop, zomba do próprio roteiro ao qual serve e chega a olhar à câmera e, por consequência, ao espectador.

Seu novo produto, Deadpool 2, não quer ser apenas uma brincadeira com o subgênero “filme de super-herói”. Quer tudo isso e ser ainda um filme de super-herói, como se assim confortasse o público, como se este fosse avisado que, apesar da zombaria, está resguardado o conforto desse universo: no fundo, Deadpool continuará a salvar o dia.

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A comédia clássica também ria de si mesma, olhava ao seu próprio interior, com personagens livres que chegavam mesmo a encarar o público. É como se dissessem que tudo não passa de brincadeira. Groucho Marx e Laurel e Hardy encaravam a câmera, sem medo, para quebrar a barreira que os separava da plateia. Por outro lado, havia fluidez.

Além disso, os gênios do passado criaram um universo em que suas regras faziam ali todo o sentido. Como em Deadpool – e guardadas as diferenças -, o público reconhece ser parte desse joguete em que nada vai além da diversão – não, pelo menos, às aparências.

O cinema pós-moderno, que para alguns surge a partir dos anos 80, não cansará de falar de si mesmo, de olhar para os mitos do passado ou para o próprio umbigo – caso do recente Jogador Nº 1, de Steven Spielberg. Esse cinema não se envergonha de reciclar o que foi feito e, a exemplo de Deadpool, vomitar o que se pode produzir da mistura que aceita tudo, na mescla possível entre corpos dilacerados e piadas sobre sexo.

E não se trata de atacar o filme de David Leitch – que de dublê saltou ao posto de diretor (e isso diz muito sobre o que alimenta o atual cinema pipoca) – pela suposta gratuidade. Violência e piadas pesadas não são problemas se bem empregadas, como revela um destacado membro da pós-modernidade, dono de potente filmografia: Quentin Tarantino.

O problema de Deadpool 2 – e isso já estava na primeira parte – é a tentativa de ocultar sua fragilidade ao aceitar falar dela. Como se, em contrato com o espectador, não fosse possível reclamar das bobagens quando estas são fruto de comentários, escancaradas, apenas para rir. É como se o herói ao centro soubesse de tudo, ao mesmo tempo em que encontra artimanhas para despejar doses de emoção. É nesse ponto que se recorre à violência.

Nesse sentido, a violência em Deadpool 2 serve mais para amortecer do que para impactar: devolve ao espectador a aparência do gênero aventura, sob a qual está fundado o “filme de super-herói”. Uma violência que “acalma” ao revelar que, apesar do filme que se descortina, das brincadeiras com os clichês, ainda restam sinais do subgênero adorado.

Um filme assim, dirão alguns, é sincero: não esconde sua natureza idiota, sobretudo quando se verifica um público ávido pelo consumo dessas bobagens. Há um pouco de razão aí. Por outro lado, um produto como Deadpool não quer ser uma paródia total. Quer ser ainda uma marca própria, ter uma personagem sólida e parte de um universo maior, um filme que pisca ao espectador para depois convidá-lo a ver sua essência. Espécie de filme-parasita em um vale-tudo que diz muito sobre o cinema atual, entre piadas e corpos dilacerados.

Às poucas – ou possíveis – personagens sérias resta o constrangimento. Até nesse ponto se percebe a falsidade. Alguém como Josh Brolin servirá voluntariamente às piadas, terá de parecer idiota a reboque, terá de empunhar um ursinho para dizer o quanto tudo isso é ridículo. Ainda assim, ligará o espectador ao universo sério do qual um dia foi parte.

Por tudo isso, o filme de Leitch é, em seus absurdos, previsível: atira para todos os lados, faz sempre o inesperado. Desde os primeiros instantes, quando o protagonista explode a si mesmo, percebe-se a prevalência do barulho, da brincadeira, tudo pelos ares. Para um consumo rápido, para ser logo dispensado, enquanto pisca ao espectador.

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