Os Campos Voltarão, de Ermanno Olmi

É difícil diferenciar os homens no interior da trincheira. Com roupas grossas para escapar do frio, dos pés à cabeça, eles estão presos à condição de soldados, supostos lutadores, resistentes. O que desejam, mais que se esconder ou se esquentar, é escapar da guerra na qual se envolveram, a Primeira Mundial.

Não é, de longe, a mais popular retratada no cinema. Outros conflitos renderam mais filmes. A chamada “guerra das trincheiras” colocava os homens em fileira, escondidos em buracos, valas, o que gerou bons momentos dramáticos em outros casos.

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Em Os Campos Voltarão, de Ermanno Olmi, aos poucos os soldados deixam ver suas diferenças nesses espaços – para além da situação, das roupas grossas, da inquietação provocada pelo frio, da espera e do medo que une mais de um, ou quase todos.

Um deles, ainda no início, canta sobre a trincheira. À frente, recebe ordens para cantar novamente e explica a situação ao superior: só é possível cantar, diz, quando se está contente. Não é o caso no meio daquela guerra, naquele momento. A trincheira havia sido bombardeada. Alguns companheiros estavam mortos.

Não há qualquer conflito direto, olho no olho, entre os lados envolvidos nessa guerra ao longo do filme. Há apenas o momento do bombardeio e o disparo de um atirador – tudo com considerável distância. O grande cineasta, humanista como é, prefere os homens; nem mesmo as lembranças dos soldados são materializadas.

Ao invés delas, prefere, ao fim, a narração das personagens. São histórias variadas, como a do soldado que confessa ter retornado para casa e encontrado a mulher com outro homem. Quando alguém aparece na trincheira para entregar cartas, a câmera retorna à face do mesmo soldado traído, apreensiva, sem explicar demais. Esperava pela carta da mulher que o traiu? Não se sabe.

Outro soldado, mais tarde, oferece um relato comovente: os sobreviventes, diz, estão condenados “a morrer duas vezes”. A mensagem de Olmi é clara: na guerra, mesmo os vivos de alguma forma já morreram. Estão enterrados, imóveis, confinados no buraco coberto por gelo, em algum lugar indefinido, contra o inimigo invisível.

A fera que descreve a frase de um pastor, que fecha a obra, é, portanto, um espírito, o espírito da guerra, ao mesmo tempo em todos os lugares, a rondar o mundo, espírito insistente em sua perseguição aos seres frágeis, mesmo quando confinados.

A guerra, aqui, é feita de fuga, não de ação. A grandeza do filme está na consciência dessa questão, no medo, na dificuldade de viver ao olhar para o teto de madeira, ou para qualquer lado e não ver nada além da escuridão, ou, às vezes, do preto e branco.

Alguns gestos de aproximação são curiosos. Quebram a frieza. Em um deles, um soldado alimenta um rato. Em outro, um capitão e um major abraçam-se para o embaraço do jovem tenente, talvez por não entender aquele toque. Em meio à neve ou no fundo do esconderijo, Olmi busca esse toque possível.

(Torneranno i prati, Ermanno Olmi, 2014)

Nota: ★★★★☆

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