Aniquilação, de Alex Garland

A missão no interior de um espaço alienígena leva inevitavelmente ao encontro do farol. A estrutura pertence aos humanos, estava ali antes da chegada dos visitantes. A estrutura representa a necessidade de equilíbrio, caminho, certezas – itens que, não por acaso, faltam em Aniquilação.

É pela luz do farol, ou pela sua presença, que os marinheiros encontram a terra firme – ou se desviam dela. Os alienígenas procuram no farol um ambiente para a nova vida que impõem: essa luz que aumenta pouco a pouco, aqui chamada de brilho, é um falso farol, uma propagação que institui, ao que parece, o oposto: a aniquilação.

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Não há muitas certezas no filme de Alex Garland. O espectador tem a impressão de que falta algo, de que a necessidade do mistério passa dos limites: em algum ponto, a opção por não responder às perguntas do público será capaz de irritá-lo. A reboque, o filme diz pouco, quase nada, sobre a heroína que não se esforça para agradar.

Em cena, Natalie Portman é a bióloga Lena. Termina no brilho após seu marido retornar da mesma zona alienígena. O homem, vivido por Oscar Isaac, reaparece, certo dia, sem alma, com respostas evasivas. Quando é levado a uma base do governo, a mulher vai junto e logo se integra a uma nova missão. Ao contrário da anterior, formada por homens, a seguinte será composta apenas por mulheres.

Outra questão curiosa, por sinal: os homens fracassaram. As mulheres retornam ao local para talvez descobrir essas causas. Ou mais: para chegar ao ponto em que os homens não chegaram. A certeza é que tudo se transforma – fisicamente ou não – nessa redoma brilhante, de paredes que parecem ter sido moldadas à água e sabão.

O interior do brilho revela novas vidas partindo de antigas, outras misturas, mutações impensadas: animais mesclam-se a vegetais, plantas crescem seguindo formas do corpo humano. Nem as almas escapam da fusão ao outro: os gritos de uma mulher morta continuam na boca da criatura assassina. O que antes separava agora une.

Talvez a aniquilação à qual o título refere-se dependa dessa fusão. Os alienígenas apropriam-se do espaço dos homens, “copiam” as formas de vida encontradas, provocam mutação: o sangue humano prega-se à forma do visitante, redoma que sorve a si mesma, momento em que Lena talvez deixe de ser completamente humana.

As perguntas persistem. Garland, também autor do roteiro, do livro de Jeff VanderMeer, oferece, sobretudo, a invasão ao impensável, à matéria desconhecida, onde as descobertas da ciência são contestadas. E, como se vê, não basta o mistério. Sozinho, não sacia.

(Annihilation, Alex Garland, 2018)

Nota: ★★☆☆☆

Veja também:
2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick

2 comentários

  1. Fiquei estarrecida ao assistir Aniquilação. Assisti mais 10 vezes e talvez mais 10 vezes, sempre maravilhada e mergulhada no belo e no horrível. O cenário alienígena, além de sua beleza extraordinária e aterrorizante, serve de pano de fundo para pensar o humano, suas jornadas e seus paradoxos. Todas mulheres, todas com ferimentos profundos. Extraordinárias atuações, a meu ver, e não sou novata. As duas mais sofridas e por isso mais duras, Ventress e Lena, não tem sorrisos, não tem mais o que perder. As demais, vivendo suas dores de forma mais ingênua, vão se transformando ao longo do caminho, suas frágeis defesas se desintegrando. Somente as duas mais experientes e forjadas na dor, no câncer, na perda ou no exército, tem chance de chegar ao seu destino. O que dizer dessa luz, dessa força que, sendo biológica transforma energia em matéria e vice-versa, que não parece ter intenções, somente está ali, espraiando-se como uma radioatividade? O que dizer da música, da trilha sonora? O que dizer dos movimentos da câmera, da linda montagem arquitetônica que traz o passado que está presente com lembranças e sonhos? Com todo o respeito pelos que não gostarm ou não gostarão do filme, o que dizer daquele ovo, daquele útero feito de luz e movimento que se auto-engendra sem parar? E quem, alguém me diga, retorna duma jornada dessas ainda sendo a mesma pessoa? “Are you Lena?” Dez estrelas para Aniquilação!

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