A Cor Púrpura, de Steven Spielberg

De tão curta a distância, difícil acreditar que Celie Johnson não consegue percorrê-la. O avanço – ainda que a câmera sempre busque a profundidade e aumente o tamanho, o que é proposital – é mínimo: para fugir do companheiro violento, a protagonista sofrida precisaria apenas ultrapassar a caixa do correio, seguir o sol que estoura.

A caixa do correio, em A Cor Púrpura, imobiliza e liberta: Celie fica ali, às ordens e à violência do marido que a tomou como mulher, à espera de um sinal da irmã que foi embora, de quem se viu separada boa parte da vida. É dessa caixa metálica que chega também a libertação: as cartas da mesma irmã, com sua história de vida.

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Nesse filme dramático, quase sempre reclinado ao olhar clássico, pouco realista, Steven Spielberg representa na casa e nos poucos espaços além dela a prisão de uma mulher. Como fica claro desde o início, Celie viveu para servir, para obedecer, rindo com medo, com as mãos levadas à face para esconder o semblante feliz, nem sempre presente.

Spielberg, a partir do livro de Alice Walker, não recua quando se trata de drama: habilidoso, sabe mesmo como utilizar o exagero a seu favor, e suas sequências de separação e reencontro só não desandam porque, antes ou depois, há sempre outros gêneros a colher. Prepara o drama com doses de comédia, ou mesmo com personagens cômicas em situações difíceis.

Transforma uma casa de música no espaço para lutas burlescas, entre tetos que desabam e a parca luz, vinda do lado de fora, pelas madeiras, para salientar a reclusão e o outro lado possível dessa história sobre gente perseguida: eis ali, pela música, pela bebida, pela mulher empoderada que sacode o corpo com o vestido vermelho, a fuga das personagens.

Com tal material feliz, além das pessoas que irrompem para selar o fim de uma sequência com frases de efeito, Spielberg prepara a chegada ao drama pesado. Nessa montanha-russa, consegue ainda ter sentido, dar organização, fazer ver o que, entre extremos, convence.

As elipses tampouco atrapalham. Pelo contrário: um, cinco, dez anos, parece não haver diferença. A redoma de Celie quase não deixa espaço para que seja outra, pois está sempre no mesmo lugar, no círculo vicioso do qual apenas algum milagre pode fazê-la escapar. Os livros de Charles Dickens não estão ali à toa. Têm, em certa medida, semelhanças com o tratamento de Spielberg à trajetória de Celie, entre a fábula e a miséria.

Há quem possa apontar certo exagero nisso: a saga de Celie, para muitos, é pura realidade. No que toca o drama da convivência com o homem que se crê dono da protagonista, será assim. Ou nos momentos em que os brancos, intrusos, resolvem impor força. De resto, pelos olhos e sorriso de Celie, há muito de esperançoso, de imaginativo, de fugidio.

Sobretudo quando encontra a leitura, ao observar da varanda o sol que recai, o mesmo que recai à África em que vive a irmã. No outro continente, há de se encontrar no aparente desconhecido, na outra língua, as origens, o ponto inicial. Há nessa viagem, nesses pontos que se tocam pela montagem alternada, um sentido para essa existência.

Whoopi Goldberg comunica o drama pelos olhos, a felicidade pelo sorriso. Ao cruzar espaço tão curto rumo à liberdade, justamente no veículo da mulher livre (Margaret Avery) que lhe apresentou o prazer pelo mesmo sexo, chega, enfim, à tardia maturidade: deixa de ser a pessoa de traços infantis, recolhida, à espera do próximo bofetão.

Liberta, ao que parece, pelas cartas, ou pelas palavras. Sai do espaço escuro da caixa do correio – ao qual Spielberg leva sua câmera a certa altura – a força para escapar: Celie descobre o tamanho do mundo, o exemplo da irmã, o outro continente em que as pessoas, como em seu círculo, continuam sofrendo e sendo perseguidas.

Do lado dela, um belo demônio, Albert (Danny Glover), recusa a se inclinar a qualquer um. É discutível se chega a ser vilão. Aos poucos sua fraqueza é flagrante: com a faca no pescoço, empunhada pela própria Celie, ele percebe que perdeu seus poderes. À porta da casa de pilares avantajados, talvez apenas reproduza o mal que herdou dos brancos. O pior dos séculos passados é nítido no golpe contra a face do outro, na humilhação.

(The Color Purple, Steven Spielberg, 1985)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Império do Sol, de Steven Spielberg

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