Tensão em Shangai, de Josef von Sternberg

A cidade, Xangai, é o ponto de encontro, de mistura. A mesa de jogos no cassino em que boa parte do filme desenrola-se, seu resumo: o fundo de um redemoinho ao qual a câmera inclina-se, aprofunda-se, a forma da Babel visualmente invertida, do choque entre seres que apostam na sorte à medida que língua não há. É a língua do jogo.

Antecipa, sem que se possa falar em cópia, a obra-prima Casablanca, lançada no ano seguinte com o carimbo dos grandes estúdios (neste caso, a Warner) e feita, como Tensão em Shangai, no esquema rápido da época, na máquina de forjar nacionalidades. Não se nega: toda essa falsidade tem algo apaixonante, algo kitsch pelo qual se deixa levar.

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O diretor Josef von Sternberg está no terreno que conhece bem, antro em que beldades e ladrões mesclam-se, em que o charme supera a caricatura. Basta pensar, por exemplo, na força de Gene Tierney – em momentos uma variação palpável de Marlene Dietrich, que preferia a distância – à contramão do desagradável Victor Mature.

São tantas personagens nesse redemoinho que o melhor é começar por ela, que chega para assistir, do balcão do bar, a perdição dessa Babel moderna, e que não resiste em descer as escadas, em curta distância, e se lançar à mesa de jogos. Seu pai (Walter Huston), sabe-se depois, é um homem poderoso que aterrissou em Xangai para fazer algumas mudanças, entre elas desapropriar a área em que se encontra o cassino.

E esse homem, Sir Guy Charteris, é alguém comum, sem retoques e mistérios: nos filmes de Sternberg, são as mulheres que reproduzem o indizível, o estado em que o mito repousa sobre os outros, os mortais (não custa, outra vez, citar Dietrich). No bar, mais tarde, Poppy (Tierney) será vista chutando um copo sobre o balcão.

A bela despedaça-se. Ao lado, uma mulher estranha, de sorriso plástico ao estilo Norma Desmond, percorre o ambiente. É a dona do cassino (Ona Munson), que tenta atrair ao local o novo homem poderoso da cidade. Ao centro, ela resume o estado do filme e do espaço em que todos tentam falar a mesma língua. À dama interessa o poder e a representação, a continuidade dos rituais, resumidos pelo jantar final.

Ao tentar reproduzir algum canto do mundo, a Hollywood da época não raro dava vazão ao lugar inexistente: era algo perfeito a um cineasta como Sternberg, a quem o mundo de luxo sempre carrega doses de tragédia, a quem a beleza nunca deixa escapar monstruosidade ou mesmo algum respingo de estranho humanismo.

A estética do luxo é abertamente falsa: os cenários parecem grandes demais e estão à disposição de um filme que não esconde a pequenez. Obra desavergonhada, parte de um grande cinema, de intrigas que se resumem à espiral em que todos foram lançados: não estranha o fato de a mesa de jogos, no redemoinho do cassino, no buraco no chão, ser justamente a imagem escolhida para encerrar a obra.

Avessa à distância de Tierney e, sobretudo, à de Munson está a lourinha Phyllis Brooks, dama hawkisiana, atrevida, livre, desbocada – com todos os atrativos que a fazem peça necessária, ao mesmo tempo a enfeitar o espaço que escapa ao mundo real. É levada para a prisão, nos primeiros instantes, até ser salva por um jogador.

Em seguida, como todos, terminará no cassino. Mas a pequena dama nada tem de burra: sabe que local é aquele, sabe do que são feitas aquelas pessoas, conhece homens firmes e sérios como o Charteris de Huston. Nesse meio de falsas belezas, ela – pequena, coadjuvante, passageira – pisca ao espectador: bem ou mal, é o que há de mais autêntico.

(The Shanghai Gesture, Josef von Sternberg, 1941)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Os filmes de Josef von Sternberg com Marlene Dietrich

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