Eu, Tonya, de Craig Gillespie

As falas à objetiva deixam ver, de cara, o aspecto farsesco, o filme realizado: é a ela que Tonya e outras personagens voltam-se para confessar pecados, explicar, salientar a dobra cômica adicionada sobre a história real e triste. Ao centro, Tonya segue com piscadelas, em manobra ousada: não é sobre uma mulher, é sobre uma nação.

Não estranha que o filme de Craig Gillespie termine na lona, no ringue, com a cusparada de sangue da mesma personagem, sensível em poucos momentos. Torna-se, não à toa, uma boxeadora. Eu, Tonya prefere os golpes, as pancadas, até mesmo os tiros e a já citada cusparada, não a sensibilidade dessa mulher ao centro.

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O sensível deixa ver o raro. O filme é veloz. A patinação e sua estrela – do alto ao ponto mais baixo, à lona e ao sangue, a serviço da transformação e da monstruosidade que acompanham o espetáculo – são quase desculpas frente aos solavancos, às repetições, às idas e vindas de um interminável pesadelo àquela que poderia ter sido uma “queridinha da América”.

Sim, Tonya Harding (Margot Robbie) poderia ser sensível. Seu meio é opressivo. Ainda pequena, é empurrada pela mãe à violência: para ser a melhor, segundo a matriarca, é necessário confrontar, odiar, não deixar barato. O amor não leva a nada, tenta dizer a mulher mais velha, fria e não raro asquerosa, feita na medida por Allison Janney – um aceno ao J.K. Simmons de Whiplash: Em Busca da Perfeição.

Luta, portanto, entre a sensibilidade inerente e a violência de dentro para fora. Talvez Tonya não fosse assim tão boa e natural, disposta à alegria que sua face final carrega, rumo à absolvição (sim, o filme alivia-a). Mas é à América feita de ironias, de podridões expostas, na velocidade de um Scorsese, por exemplo, que a obra segue.

As tais piscadelas à câmera ajudam na dúvida, no recuo. Não se leva totalmente a sério essa história cheia de violência doméstica, na qual a perfeição técnica que a patinadora busca é contrastada pelas quedas, socos e tiros da vida fora da redoma de gelo. A montagem de Tatiana S. Riegel não apenas saliente esse oposto, ao fim, como fornece o passo seguinte: se for para tombar, para sangrar, então que seja, ainda, no espaço do espetáculo.

Ou como se dissesse: no caso de Tonya Harding não cabe a perfeição, o movimento como expressão de beleza e, na patinação, de sensibilidade. Em cena, o giro no ar, forma que embute algo angelical e amparado pelo branco, pelo rosto da criança que, sem saber, diz que gostaria de se tornar alguém como Tonya no futuro. Não conhece a verdadeira.

História das mais tristes, sem dúvida. E ainda que interessante nos quesitos técnicos, o excesso de movimento incomoda. Basta um telefone tocar ou qualquer pequeno sinal que indique uma ação para que a câmera corra, em travelling, cada vez mais rápida. Para trás, para frente, para o lado. O filme é uma montanha-russa, não para nunca.

Além de sofrer os abusos psicológicos da mãe, Tonya tem pela frente o marido, de quem não escapa até boa parte da história. O ponto final do encontro entre ambos – após tantos recomeços – é o conhecido episódio da violência contra outra patinadora do time americano que ia para as Olimpíadas, a concorrente Nancy Kerrigan.

O filme defende a versão de que Tonya não teria participado do plano para quebrar o joelho da outra. Teria apenas concordado com o envio de cartas para assustar a rival. Verdade ou não, o episódio, no bolo dessa farsa engraçada, serve de último passo à escalada de violência que se vê ao longo da vida de Tonya Harding, do branco do gelo ao sangue na lona.

(I, Tonya, Craig Gillespie, 2017)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Lady Bird: É Hora de Voar, de Greta Gerwig

2 comentários

  1. Gostei muito do filme, não vou mentir. Adorei a atuação da Margot e se ela tivesse ganhado o oscar, não teria ficado decepcionada (mesmo que a Frances tenha merecido). Gostei muito da montagem e da edição. As cenas das apresentações são incríveia e os personagens interessantes.
    Não curti muito a parte da violência. Ela acompanhou o filme e o estilo, mas foi como se tivesse… banalizado, de certo modo. Ficou caricato – mas acho que é mais uma opinião própria do que um faaato.
    É bem rápido mesmo, tem que ficar senão perde algumas coisas, mas no geral gostei muito, interessantíssimo!!!

    1. Então, acho que o filme tentou dar essa velocidade para fugir da tal cinebiografia convencional. Para alguns, pode parecer irritante. Grande abraço e volte sempre!

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