O Tempo do Lobo, de Michael Haneke

A proximidade do presente é assustadora. À beira da linha do trem, pessoas ainda brigam por água, por algumas cabras, atiram contra cavalos para comer sua carne e, após a perfuração do pescoço do animal e o sangue que jorra, a chuva oferece a ideia de purificação. Michael Haneke faz assim um filme sobre o fim de certa civilização.

Ao longo de diversas situações, o espectador sabe pouco, um observador a certa distância dos fatos. Tudo é tão real que assusta: as pessoas não explicam por que estão ali, para onde desejam ir, do que fogem, a que recorrem, no que creem. Ao centro de O Tempo do Lobo, uma mulher e seus dois filhos tentam sobreviver.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

O espectador perguntará, a certa altura, o que ocorreu com o mundo, ou com a Europa: uma doença devastadora? Uma guerra? Alguém fala em contaminação da água. À beira da linha, eles esperam o trem que talvez não chegue nunca, ou que talvez tenha chegado com mais pessoas entre um e outro corte temporal. Surgem novas personagens. A selvageria de alguns explode em pequenos gestos, em poucos diálogos.

Estão confinados, antes, à escuridão. Quase não há sol. O filme é cinzento, próximo do preto e branco. O verde da natureza e o marrom das árvores secas chegam a tranquilizar. Um garoto vaga por perto, sem nunca se misturar ao grupo, alguém disposto a furtar para sobreviver, coberto da cabeça aos pés por roupas largas, com um gorro.

O futuro é o presente, diz Haneke: fosse este um filme ambientado em um continente pobre, ou em um país em guerra, ninguém suspeitaria do futuro que aponta. É das possibilidades que fala, é o horror que toca, maneiras de se ver pouco, ou o suficiente: uma história sobre pessoas perdidas em um espaço que conhecem, cercadas por tipos que acreditavam conhecer: os homens logo se convertem em animais selvagens.

A protagonista, Anne Laurent (Isabelle Huppert), fugiu para o campo com o marido e os dois filhos. O filme tem início com sua chegada à casa de campo, ao refúgio, local tomado por outra família. O problema está instalado, é antigo: a briga pela propriedade, o que faz pensar em algum velho faroeste sobre homens armados e crianças assustadas.

O invasor atira contra o marido de Anne. A face da mulher, suja de sangue, antecipa o que vem em seguida: o horror será feito pelo choque silencioso, mais do que pelos gritos; será formatado à base do rosto que talvez não entenda o peso dos problemas que agora recaem, nesse universo em que o mínimo é o máximo: nesse tempo de lobos, será preciso trocar objetos por água, o corpo por alimentos.

Os cães selvagens atacam em silêncio, são vistos a distância. O pássaro tenta escapar do casebre em que a família esconde-se, termina preso ao peito de seu dono, o filho de Anne, e, após morrer, recebe um pequeno funeral sobre o feno. Os sinais religiosos não escapam: ao fim, o mesmo menino lança-se ao sacrifício, na fogueira sobre os trilhos, talvez para tentar corrigir os problemas desse mundo estranho do qual é parte.

O mal está suspenso no efeito opaco. Haneke não poupa, não explica. Faz um filme misterioso que não chega a ser o mais brutal de seus trabalhos, nem o mais ambicioso. Como em outras de suas obras, insere o horror no espaço do real, das pessoas comuns, das famílias autodestrutivas. Se em obras contundentes como O Sétimo Continente o horror via-se preso a pequenos espaços, em O Tempo do Lobo o diretor volta-se ao grupo, à relação com estranhos, à sociedade vítima de suas necessidades básicas.

O campo visto do interior do trem, nas imagens do fechamento, talvez indique a saída. O objetivo, contudo, não é encontrar um desfecho de conciliação, um enigma a ser decifrado e algum alívio. Haneke muda o trajeto, foge do esperado. Sua locomotiva leva a lugar algum. Suas personagens começam e terminam em uma viagem de destino incerto.

(Le temps du loup, Michael Haneke, 2003)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Vídeo: o cinema de Michael Haneke

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s