Não foi dessa vez que o rapaz do gueto se tornou rei

Há certa obviedade na presença de Andy Serkis como o vilão de Pantera Negra. Nele estão todas as características da oposição ao herói negro da Marvel: as marcas de loucura, as mortes gratuitas, o braço mecânica que esconde uma arma poderosa, a pele branca. Seria fácil elegê-lo, ainda que o roteiro tenha ambição maior.

Ao herói negro o vilão negro. Uma luta entre “iguais”, entre os que surgiram da mesma linhagem, que dividem o mesmo sangue. O rei de Wakanda, país fictício em que boa parte do filme de Ryan Coogler é ambientado, terá de confrontar o excluído da tribo, o primo que não sabia ter, alguém com força suficiente para reivindicar o trono.

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Esse primo esquecido estava legado ao gueto, mundo real em que vivem muitos negros americanos (mas não só), alguém cujo pai foi assassinado e que cresceu sob ódio constante. A história do primo – não tão distante do rei quanto parece – é conhecida. A distância do vilão é curta. As fronteiras são conhecidas, manjadas e comuns a filmes do tipo.

Pantera Negra, é bom não se deixar enganar, oferece a ideia de que há um reino de conforto, belo, escondido, desenvolvido e ao qual alguns africanos podem recorrer: Wakanda é como um país das maravilhas abertamente fictício e impossível, o aspecto mais falso de um filme que, comparado a outras produções da Marvel, propõe algo adulto.

Seu novo rei estava em Capitão América: Guerra Civil. T’Challa (Chadwick Boseman), ora ou outra transformado em Pantera Negra, viu o pai ser morto após a explosão de uma bomba. Rei morto, rei posto. O príncipe volta ao país dos sonhos, escondido do mapa, isolado das agruras de seu continente pobre, para subir ao trono e governar.

Seu primo e verdadeiro vilão, Erik Killmonger (Michael B. Jordan), retorna para lembrá-lo da fragilidade dos laços de sangue, das coroas, e de como um líder pode ser substituído rapidamente à medida que todos (ou quase) fingem aceitar o que se deu. A coroa será disputada em luta, o que deixa ver a fixação do povo pelos rituais.

Quer dizer, talvez não sejam tão evoluídos como pareçam. Alguém dirá: “é algo cultural”. O país com o metal mais poderoso do mundo, nesse caso, ainda recorre a rituais de violência, à luta, para ver nascer quem subirá ao trono. Claro que tal processo torna tudo mais interessante, claro que não se pede muita coerência.

Por outro lado, essa disputa de poder – entre o rei africano e o rapaz americano do gueto – esconde o que o filme de Coogler tem de mais irônico: não será dessa vez que o excluído chegará ao trono. No universo dos super-heróis, ele é feito vilão. Fosse outro, poderia ser um forte candidato a revolucionário, a dar o que seu país de origem tem de mais forte – o metal transformado em arma poderosa – para os excluídos ao redor do mundo.

Seria, fosse outro caso, e aqui não se esconde a especulação, um gesto de revolta, uma saída à força dos guetos em que muitos se encontram. É de estranhar que o mesmo diretor de Fruitvale Station: A Última Parada tenha deixado escapar esse detalhe (ou fingido não enxergar). Por outro lado, a estrutura do filme de super-herói, à maioria, será suficiente para colocar o revoltado em seu lugar de origem: ele é o vilão.

Também não se ignora que Erik, aos olhos dos brancos, possa ser um perigo para a humanidade. Ou aos olhos de todos. Vem para abalar o paraíso, oferecer o espelho invertido que a maioria encara como algoz natural. Um metal poderoso no escudo do Capitão América, no traje do Homem de Ferro ou no de um rei africano parece recomendável. Nas mãos de jovens negros guetizados, sob constante açoite do poder branco, pode parecer radical e perigoso demais ao espectador acomodado.

(Black Panther, Ryan Coogler, 2018)

Nota: ★★☆☆☆

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