Lady Bird: É Hora de Voar, de Greta Gerwig

O desejo de viver na cidade grande, ao fim, casa-se ao reconhecimento do que é o verdadeiro lar. Tocante, por isso, o momento em que Christine “Lady Bird” McPherson retorna, em mente, aos dias em que guiou um carro pelas ruas de Sacramento, na Califórnia. A confusão de sua adolescência expressa-se no desejo de ir embora e na vontade de ficar, ao perceber algumas passagens inesquecíveis da própria vida.

A moça enxerga a importância das raízes, da família, de tudo o que parecia odiar nesse filme veloz e engraçado da também atriz Greta Gerwig. Nem por isso é conservador. À contramão da educação religiosa, das famílias tradicionais em grandes casas enfeitadas com a bandeira americana, os jovens correm para se libertar em Lady Bird: É Hora de Voar.

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O apelido que a menina apropria diz alguma coisa. Não se sabe quando e por que o tomou. A mãe, com ela, traz rasgos: ambas discutem no carro, ainda no início, pouco depois de ouvirem, em fita cassete, As Vinhas da Ira, de John Steinbeck. Há algo de americano e libertador nessa obra, também sobre uma família que roda o país sem muito a fazer senão continuar em deslocamento, como tradução do povo.

Pois Gerwig, sem nunca recorrer ao rascunho previsível, deseja falar dos tipos diferentes de uma nação, a partir daqueles que vivem em uma cidade cujo nome apanha, de cara, algo bíblico: Sacramento. É por ali, com cabelos vermelhos, à cata de descobertas e pitacos de graça, que Lady Bird estabelece-se nunca como diferente, muito menos igual.

Não há o jogo do bullying, tão manjado, menos ainda a investida dos padres e freiras, a conduzir os jovens à constante prisão. São alegres, simpáticos, engraçados, contra os quais Lady Bird não tem muito a fazer. Seu drama maior está na relação com a mãe, ou na dificuldade de expressar sentimentos a esta – o que se vê igualmente do outro lado.

O diálogo-chave ocorre no momento em que a protagonista experimenta roupas no provador. A mãe, interpretada na medida por Laurie Metcalf, aguarda do lado de fora. A conversa encontra o peso da discussão, do relacionamento, a dificuldade de amar sem expressar: o ponto em que o filme cresce sem dar sinais, de maneira abrupta.

É quando a mãe afirma que ama a filha. E quando a menina responde, como sempre faz, sob os impulsos que a guiam: “Mas você gosta de mim?”, pergunta Lady Bird. “Eu quero que você seja a melhor versão de você que consiga ser”, rebate a mãe. Não há dúvidas de que ela ama a filha; a dúvida reside no “gostar”, ou seja, na maneira como se vê a outra.

O filme invade algo complexo de forma passageira, como são as muitas discussões entre as personagens. Mais que amá-la, a menina quer que a mãe aceite-a como é, com suas escolhas, seu jeito de ser – pois a incerteza do “gostar”, relacionada àquilo que se vê, é algo dolorido ao adolescente que luta para aparecer, para viver, para se afirmar.

Crescer, diz o filme, não é conseguir ir embora: é ter ciência das pequenas coisas que se perde pelo caminho, do que ficou para trás e ainda resta à lembrança. Na pele da personagem-título, Saoirse Ronan está iluminada: meio adolescente, meio mulher, amante de diferentes meninos que incompreende e pelos quais é também incompreendida.

Gira, sem parar, rumo a lugar algum, ou para terminar na casa da moça que considera a melhor amiga. Em Nova York, gira para chegar à igreja, às raízes, à ideia de que pode conservar crenças – e de que são, ao contrário do que dizem alguns cosmopolitas e moderninhos, necessárias. Tomará o primeiro porre, terminará no hospital, levantará com a maquiagem borrada – perto da mulher adulta, distante da adolescente em dúvida.

(Lady Bird, Greta Gerwig, 2017)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
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