Jogada de Risco, de Paul Thomas Anderson

A aproximação às personagens é instantânea. A impressão é que existem há muito tempo, que teriam saltado de outro filme ou que viviam por ali, nos arredores de Las Vegas, feitas de uma triste história pregressa. É o que torna a curta experiência de Jogada de Risco tão animadora, tão curiosa, grande em pequenos instantes.

As personagens são jogadoras. Algumas jogam melhor, outras nasceram para perder. O que fica estampado desde o início, quando o protagonista, um certo senhor Sydney (Philip Baker Hall), convida John (John C. Reilly) para retornar com ele às mesas de jogos. O convite é aceito. Para tanto, emprestará alguns trocados ao rapaz.

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E os mesmos trocados convertem-se em mais dinheiro: é com o senhor experiente que o novo rato das apostas aprende a jogar, a marcar pontos no espaço em que tudo termina em cifras e empolgação. Mais tarde será revelado o motivo da ajuda ao novato John, e como esse passo foi determinante para seu mergulho de cabeça em um mundo estranho.

O longa-metragem de estreia de Paul Thomas Anderson prefere o senhor um pouco desiludido – estampado na pele caída sob os olhos, nas rugas do tempo – ao matador jovem. Em cena, o pacato jogador que não resiste às mesas de dados, cartas e álcool. Alguém como Sydney habita o cinema há décadas, mas nem sempre foi notado: poderia ser uma personagem secundária de Cassino ou outro longa de Scorsese.

Anderson dá voz aos excluídos. Em Jogada de Risco, talvez eles ainda tenham fôlego para assumir a dianteira, para voltar a ser o que foram. Escapam à máscara que tanto vestiram nessa terra de falsidades, de luzes atraentes, de homens bem vestidos e meninas obrigadas a ser simpáticas – ou fáceis – com visitantes que gastam em cassinos.

Reina, claro, a podridão dos quartos apertados, conjugados, das relações que só se revelam quando à mira da arma. Será Sydney, claro, quem socorrerá os mais jovens, determinados a arrancar dinheiro dos outros a qualquer custo, cobertos por enrascadas até o pescoço.

John descobre com Sydney o “mapa da mina”. O homem mais velho é direto, astuto; o mais jovem vacila, revela fraqueza. Na terra do dinheiro, há sempre um caminho para fazer mais, e para fazer certo. E se por algum motivo esse filme parece o oposto do já citado Cassino, é justamente por tratar de seres pequenos, até dignos de pena.

Importante destacar a segurança do diretor, com roteiro de sua autoria: a maneira como tece, sem pressa, a relação do velho jogador com a garçonete loura (longe da candidata à mulher do chefão) e o recém-chegado à roda de apostas (não mais que um abobalhado). Sua câmera não recorre ao fundo, à imagem da “linha de produção” do dinheiro.

Qualquer comparação com Cassino, vale ressaltar, soa injusta: são filmes diferentes. E o de Anderson é melhor. Mas são, ambos, sobre a cobiça nessa terra de luzes, sobre serpentes que apostam o tempo todo, vivendo às beiradas, sobre o instinto americano que obriga esses homens e mulheres a serem o que sempre foram.

O pequeno grande filme de Anderson está, em sua atmosfera, mais próximo de Atlantic City, de Louis Malle, no qual o francês enxerga a América de detalhes desagradáveis, de personagens que talvez se amem sem que seja necessário exclamar em alto e bom som. Suas confissões situam-se nos gestos de socorro, na fadiga após noites em claro.

(Hard Eight/ Sydney, Paul Thomas Anderson, 1996)

Nota: ★★★★☆

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