Um Mergulho no Passado, de Luca Guadagnino

O paraíso a dois não demora a ser abalado: o telefone toca enquanto o casal divide momentos de intimidade, entre a lama, à frente de um lago. É o amigo, o pequeno demônio de épocas passadas: para a mulher, a lembrança de dias loucos; para o rapaz, namorado dela, a lembrança de uma dívida que ainda une esses homens.

Pois tal dívida é insinuada em uma discussão, mais tarde, quando ambos estão à beira da piscina. À noite, eles aproximam-se da tragédia à qual Um Mergulho no Passado não faz questão de apontar – diferente, por isso, da obra anterior em que se baseia, o filme A Piscina, de Jacques Deray, de tensão sexual e suspense evidentes.

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O diretor italiano Luca Guadagnino prefere o drama de pessoas que fingem se aturar durante os dias que passam nesse paraíso seco e belo de lagoas entre rochas e serpentes que em algum momento dão as caras. A chegada do outro pode ser resumida pela reclamação do rapaz, em tom de brincadeira, à sua companheira mais velha: com convidados na casa, eles não poderão andar despidos pelo local.

O visitante é o falador e agitado Harry Hawkes (Ralph Fiennes), dono de antigas histórias sobre os Rolling Stones e, sem se esforçar, a imagem do universo louco dos bastidores do mundo da música. Deste, por sinal, emerge a estrela sem voz, a diva apagada pelo silêncio, personagem da sempre competente Tilda Swinton, Marianne Lane.

Ao paraíso ela leva seu namorado mais novo, Paul De Smedt (Matthias Schoenaerts), que conheceu justamente por intermédio de Harry. Há, por isso, alguma dívida, alguma ligação, ranço, a dor de passar pelos braços de dois homens tão diferentes e ainda assim ligados. Para completar o jogo, Harry vem na companhia da filha, a bela Penelope (Dakota Johnson).

Pouco a pouco esses seres retornam às lembranças, remoem os sentimentos. Ao barbado e ainda atraente Harry, Marianne deixa aflorar o amor: ele é tudo o que ela foi um dia, no tempo em que se drogava na companhia de desconhecidos em festas privadas.

Paul, em oposição, é o recomeço em carne, o belo que um dia tentou se matar sem sucesso, cuja história, ao retornar à roda de amigos desse paraíso, expõe a impotência do moço como ponto incômodo. Alguém como Harry – com naturalidade à nudez, ao sexo, à carne que toma sem pedir licença, à maneira como dilacera um peixe em questão de instantes – termina por apresentar a Paul o que nunca poderá ser.

A piscina em que todos se lançam serve à transparência, não ao reflexo: todos, sem excesso, serão desnudados, inclusive a bela moça que flerta com Paul. Quando se veem juntos e sozinhos em lugar distante, terminam sob a cortina do cinema. Guadagnino opta por não revelar se eles tocaram-se, se fizeram sexo, o que resultou do encontro.

Um Sonho de Amor, trabalho anterior de Guadagnino, estava trancado em grandes casas, entre estações do ano, feito de gente artificial ligada às tradições. Era infinitamente mais ambicioso, de inclinações viscontianas nem sempre empolgantes. Um Mergulho no Passado mostra inegável evolução, um filme de instantes, de pele, sobre a dificuldade de lidar com o improviso que a vida exige, no qual a guinada à fita policial não se deixa prever senão pelas presenças de Deray e seu A Piscina nos créditos.

Na redoma, Marianne não pode gritar. Está contida. Molda-se quase sempre por expressões de dor ou felicidade, pelo desejo oculto de fugir outra vez – como faz, a certa altura, ao correr ao banheiro de um bar na companhia de Harry. Destinada a amar alguém que a leva aos piores caminhos, não menos sedutores, e a viver com um suicida fracassado.

(A Bigger Splash, Luca Guadagnino, 2015)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
A Piscina, de Jacques Deray

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