A Forma da Água, de Guillermo del Toro

A mulher que não fala encontra no monstro – feito de escamas, ao mesmo tempo imponente – a possibilidade do amor, da comunicação, a criatura pela qual nutre alguma pena, e que deseja libertar. Nos tempos da Guerra Fria, ela trabalha como faxineira em um laboratório do governo. Por ali, o homem-peixe é preso para ser estudado.

Os monstros servem às boas causas. Foram incompreendidos por muito tempo. Segundo o diretor Guillermo del Toro, em A Forma da Água é a vez do monstro chegar à condição divina: será Deus aos olhos do vilão, ao fim; será Deus em seu gesto, ao levar a mão à cabeça de outro homem e curá-lo; e será Deus ao se regenerar e se erguer de novo.

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A fotografia com tons esverdeados coloca quase todo esse universo embaixo d’água: a impressão é de se flutuar, viver entre a podridão das algas, em um espaço que restou apenas a criatura à moça de boas intenções, cuja masturbação, sozinha, dá-se na água, todos os dias. De manhã, após acordar, antes de se preparar para o trabalho.

Elisa Esposito (Sally Hawkins) deixa saber mais em seu aparente silêncio. Por muito tempo permaneceu mergulhada nas águas verdes, no líquido que a rodeia, que a toma, à espera da criatura que, em algum momento, deverá emergir. E quando sai do tanque, no laboratório, mais parece criança, pequeno ser indefeso.

A moça vê-se perdida por aquela forma estranha, mas à qual – não como bela, tampouco a outra como fera – ver-se-á enredada. Os estranhos são deuses. O mundo coloca-se com alguma inversão: são os homens brancos em suas belas casas, com belas famílias, os verdadeiros monstros. Nesse caso, o maldoso Richard Strickland (Michael Shannon), que faz sexo com a mulher como se esta fosse um pedaço de carne.

Del Toro toma clara referência, ainda que deseje dar uma sequência possível à história passada, resposta ao cinema clássico e fantástico que ainda guardava certa limitação: O Monstro da Lagoa Negra, de 1954. Nas investidas de exploradores pela América do Sul, alguns homens e uma mulher são perseguidos por uma criatura – parte homem, parte peixe. Não tinha nada mais a oferecer senão essa forma, e não se deixava ver.

Quando presa, em A Forma da Água, a criatura vai além: a mulher simples, sem fala, vê nela a face de Deus. Uma criatura maravilhosa que pode ser amada, que a recobre, que a protege, que a fará respirar sob as águas. Vê nela sua fuga, seu prazer, sua prisão: ela tem enfim coragem de se lançar na água. Antes, no clássico de Jack Arnold, a bela mulher flertava com a “lagoa negra”. Seu desejo de descobrir o que havia ali era latente.

A personagem de del Toro escapa aos pulinhos pelo corredor, de inspiração escondida, mas a explodir; uma mulher sem fala que expressa tudo pela face, pelo gesto menor, no rosto sempre esperançoso de Hawkins, como se sempre estivesse à espera de algo. De um amor, talvez, ou da surpresa em descobrir isso na forma inesperada.

Os “suspeitos de sempre” estão a serviço do bem: a mulher com deficiência, seu vizinho gay e bondoso (Richard Jenkins), a amiga negra (Octavia Spencer) que vive para servir o marido, além do curioso espião soviético (Michael Stuhlbarg), que ainda deixa ver um pouco de coração. O último, como a primeira, entende que deuses não podem viver sob o risco da experiência dos homens, tampouco sob o de serem sacrificados.

Como nos filmes anteriores de del Toro, os monstros indicam o caminho às personagens. O universo ao lado pode indicar a realidade, como a perseguição nos tempos de Francisco Franco em A Espinha do Diabo e O Labirinto do Fauno. Monstros escondidos cuja verdadeira forma não pode ser vista. É de tal essência que fala A Forma da Água: por ela, chega aos sentimentos, à história de amor possível aos reclusos, gente que, como Elisa, aprendeu a amar o que se convencionou chamar de grotesco.

(The Shape of Water, Guillermo del Toro, 2017)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
A busca pela eternidade em dois filmes de Guillermo del Toro

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