O Monstro da Lagoa Negra, de Jack Arnold

Antes de se chegar à criatura é necessário chegar à bela. À beira da lago escuro, ela flerta com as águas – aparentemente indiferente aos homens brutos, falsos mas belos, que a rodeiam: o namorado que mergulha sem camisa, com alguma sinceridade, além de seu rival, igualmente com peito nu, louro, enlouquecido pelo monstro que sai das águas.

A moça tem curiosidade de saber como é a lagoa, deseja se banhar em suas águas. A fotografia em preto e branco não se esforça para fazer daquele espaço o que se pensa: por ali, quando as águas são vistas de fora, tudo é escuro. A lagoa reflete o universo do monstro, o perigo, a incerteza – justamente onde a bela pretende saltar de cabeça.

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E ainda que nem sempre indique esse lado “obscuro”, esse desejo reprimido ao longo de O Monstro da Lagoa Negra, de Jack Arnold, vale salientar que restam indicações discretas pela direção inteligente, nesse filme cujas limitações são vencidas pelas belas imagens, sobretudo as do fundo das águas em direção à superfície, da escuridão à luz.

Décadas antes de Steven Spielberg colocar uma moça no mar, prestes a ser atacada por uma fera (ou seja, o tubarão, mas talvez isso não importe), Arnold revelou as pernas da vítima em movimento, do fundo, em contra-plongée (de baixo para cima), na forma como qualquer ser, em água, torna-se o alvo da criatura que prepara o ataque.

A moça é a vítima, o objeto de desejo. A criatura, à frente, levará a mesma dama a seu refúgio, à caverna cuja passagem não é explicada – surgem apenas uma rocha no fundo do lago e em seguida seu interior. Como mágica, passa-se ao ambiente interno, de pedras e umidade, esconderijo ao qual a mulher é carregada pelo bicho.

A narração da abertura segue o esquema dos filmes B: dar fundo científico e tamanho àquilo que servia de diversão passageira – ou assim era realizada. A criatura em cena – cuja aparência plástica assusta mais pelos defeitos do que pelos detalhes das escamas – é um dos monstros que entraram para o imaginário coletivo, meio homem, meio peixe, com algum sentimento preso.

Talvez, como em Frankenstein, tenha-se aqui um caso de busca por uma companheira, ou a fixação pela figura feminina que, entre homens rústicos e falsos, em uma floresta sem muito fundo, reproduzida em estúdio, permite ver algo intocado. Ou seja, como a dama tomada à força por King Kong, no clássico de 1933, talvez seja “perfeita demais”.

Esse contraponto é excitante: a beldade de capa de revista – filmada à água de maneira natural, desejada pelo público sem fazer muito esforço – é Julie Adams, que pelo monstro é devorada pelos olhos. Ao mesmo tempo em que ela parece destoar do bicho e do espaço, completa ambos com beleza exagerada, com gritos calculados.

Um não existe sem o outro. E tal dicotomia, no cinema clássico, não se detém apenas aos filmes de monstro. Em alguns faroestes ou filmes noir, a “criatura” é o macho grotesco que, à força, toma a bela de curvas à mostra e a leva para algum local inóspito. Jane Russell em O Proscrito ou Rita Hayworth em A Dama de Shanghai são dois exemplos que vêm à mente. Decidiram se jogar na “lagoa negra”. Foram fisgadas pela fera.

(Creature from the Black Lagoon, Jack Arnold, 1954)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
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