Mark Felt – O Homem que Derrubou a Casa Branca, de Peter Landesman

Difícil, para quem viu e reviu Todos os Homens do Presidente, imaginar uma vida por trás do Garganta Profunda. Ou um coração. É verdade que Mark Felt – o homem por trás do apelido – não é lá muito emotivo. Em cena, interpretado por Liam Neeson, é um daqueles profissionais que levam a honra e o trabalho a sério, viciados no que fazem.

A impressão é que ele, como o filme, é viciado em “ser americano” – apesar de todas as implicações que a expressão pode ter, além de soar um pouco preconceituosa. De qualquer forma, é o que se vê em Mark Felt – O Homem que Derrubou a Casa Branca, a história do Garganta Profunda e os dias em que viu o FBI, no qual trabalhava, ser desmoralizado.

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Após a morte de John Edgar Hoover, a instituição recebe uma liderança alinhada aos arapongas republicanos. Devido à corrupção, Felt – o primeiro na linha sucessória não fossem os fatores políticos – decidiu entregar a sujeira à imprensa. Vêm então as manchetes, os fatos assustadores, as informações que apenas alguém do FBI poderia ter. Não demora, sabe-se, para o bomba cair no colo de Richard Nixon.

Em tempos de filmes feitos de barulho, tiros e explosões, Mark Felt vai a caminho contrário: quer ser – e até certo ponto consegue – uma daquelas obras feitas de sombras, diálogos, cuja emoção depende do toque no telefone, do sussurro ou mesmo da conversa no fundo de uma garagem (como se viu em Todos os Homens do Presidente).

Filme atípico, portanto, para um público hoje restrito e, sobretudo, àqueles que se interessam pela história americana recente. É também sobre um tempo de paranoia e perseguição, sobre homens grampeados, desconfiados, quando ninguém podia confiar em ninguém – à medida que as notícias remetiam ao Vietnã e à ação de grupos terroristas.

Felt é o homem passado, experiente, quase sempre em terno de contornos perfeitos, de cabelo grisalho que pouco sai do lugar. Chegado à pintura, revela ser também um homem culto. Ama a mulher e a instituição na qual trabalha. Alguém, diz o filme, acima de qualquer suspeita, o bom americano – apesar de delator revelado.

Homem que, fechado, traz à tela um enigma, e talvez um problema: Felt parece perfeito e ideal demais para os atos que praticou, mesmo quando esses atos, revela o filme, seriam necessários para expor a sujeira praticada pelos capangas de Nixon. O ato reprovável à situação correta, aqui para dar luz ao herói.

Há, por isso, muitas perguntas sem respostas, limitadas a um filme que toma partido, que prefere o silêncio e o mistério à ambiguidade. Mesmo com jeito soturno, reservado, o tipo honesto que sofre calado, Felt ainda deixa dúvidas. Sua fraqueza, em determinado momento, quando os integrantes do FBI são pressionados a dizer quem é o delator, pode ser vista em um ou outro olhar perdido, no semblante do competente Neeson.

A desculpa é sempre a honra de uma instituição, o que permite abalar, por isso, a honra de um homem. Com suas várias escapadas para desculpar o herói, o trabalho de Peter Landesman escancara sua estratégia no epílogo, momento em que outra situação vem à tona para proteger esse homem americano demais, ou feito para assim parecer.

O visual feito à escuridão, não muito distante de Todos os Homens do Presidente, lança uma nação às sombras, ao tempo de incertezas no qual um presidente perdia credibilidade à medida que o jornalismo ganhava pontos, enquanto um delator, fantasma ou coadjuvante por décadas, era identificado apenas por um apelido desagradável.

(Mark Felt: The Man Who Brought Down the White House, Peter Landesman, 2017)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
O Outro Lado da Esperança, de Aki Kaurismäki

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