O Grande Momento, de Roberto Santos

O cinema imortalizou figuras que perdem suas bicicletas – suas liberdades, em algum limite – e outras que, no fim da jornada, veem-se em uma estação de trem ou ônibus. A mudança não é tão profunda como parece. A impressão é de que tudo seguirá como sempre foi, talvez pior. Por isso, O Grande Momento faz pensar no italiano Ladrões de Bicicleta, claro, e no britânico O Mundo Fabuloso de Billy Liar, feito mais tarde.

Seres amáveis, conhecidos, percorrem esses filmes: personagens errantes, não raro imperfeitas, próximas de alguma transformação: o emprego que vem com a bicicleta, a possibilidade de deixar a pequena cidade provinciana e ir para a metrópole, ou mesmo a preparação da festa de casamento e os gastos que o ritual acompanha.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

O noivo é o protagonista, Zeca (Gianfrancesco Guarnieri), grudado em sua bicicleta, em suas investidas para conseguir dinheiro e pagar os gastos da festa. O pai faz o mesmo, por diferentes locais, para levantar trocados; a mãe trabalha com a filha e irmã de Zeca nos preparativos finais, e é possível ver todas essas figuras brigando ou reclamando de algo.

Todos convivem na casa de poucos cômodos, à qual Zeca retorna para não conseguir descansar. Reclama que passou a noite trabalhando, até o último momento que antecede a data festiva, para conseguir dinheiro. O filme é sobre essa jornada, sobre como toda mudança exige grande esforço, e como todo esse esforço pode ser questionado.

Todo esforço que leva, para a tristeza do protagonista, à venda de sua bicicleta. Justamente a bicicleta, o meio de transporte, o que o torna – ao menos às aparências, ou no sentido que o filme dá-lhe – mais livre. Vê-lo percorrer as ruas do Brás, em São Paulo, com a bicicleta, com alguma velocidade, é entender o sentido dessa liberdade.

Depois vem o casamento, o compromisso, o ritual: não é preciso ver o dia seguinte para compreender que a vida de Zeca não será mais a mesma – sem a bicicleta. Ainda que não faça uma crítica direta, o filme deixa nítido o estado de transformação promovido pelo matrimônio, a adesão à vida conformada, de raízes, para seguir o caminho dos pais, de sua linhagem, à contramão de qualquer coisa que possa torná-lo mais livre.

Não se trata de detonar com o casamento. É uma passagem, apenas. O filme de Roberto Santos é a crônica desse estado de imperfeição, desse redemoinho ao qual (quase) todos se lançam mesmo sabendo das consequências, do dinheiro necessário para fazer a festa – com fotógrafo, terno, a viagem de lua de mel.

A opção pela comédia não permite que figuras imperfeitas sejam borradas: como nas melhores comédias italianas, o espectador aprende a amá-las porque o absurdo que projetam sempre reflete algo universal, inescapável, de novo relacionado ao redemoinho ao qual (quase) todos se deixam levar: se o ritual envolve tantos problemas, ainda vale a pena seguir em frente, mergulhar na nova vida que, no fundo, não mudará tanto assim?

No caso de Zeca, ao que parece não há escolha. O espectador entende. O protagonista até tenta escapar quando o dinheiro acaba, e quando os convidados da festa desejam beber mais. Ele próprio foge para um bar, depois para casa. Os parentes da noiva perguntam por ele. O pai consegue trazê-lo de volta. Não tem jeito. O fim está dado.

O Grande Momento é lançado em um ponto de transição, quando o sonho de uma indústria cinematográfica no Brasil parecia se desfazer e um cinema de autor, feito por cabeças jovens, promovia inegável rompimento. Filme que, de certa forma, nutre-se um pouco dessas duas ondas, cujo retrato da gente simples e amável deixa ver a pobreza.

“A lei é a do coração e os impulsos falam mais do que o cálculo, mas a pobreza não isenta os personagens de crueldade, mesquinharia, egoísmo”, observa o crítico de cinema Ely Azeredo, na Tribuna da Imprensa, em 1958. A corrida de Zeca, ao fim, rumo ao bonde e ao lado da amada, é apenas um momento de felicidade, provável contraste aos dias que se seguirão.

(Idem, Roberto Santos, 1958)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
A Felicidade Não se Compra, de Frank Capra

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s