A Mulher do Padeiro, de Marcel Pagnol

Uma personagem secundária, baixinha e de bigode, em um bar, define a situação: “É trágico, e ao mesmo tempo cômico”. O homem fala da situação do padeiro, deixado pela mulher poucos dias após se mudar a uma pequena cidade.

Ali, as pessoas dependem dos pães, e estes não podem faltar. Mas o padeiro, sem a companheira, deixa de fazê-los. Todos entram em desespero e, não demora muito, organizam-se para trazê-la de volta.

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Em A Mulher do Padeiro, a traição é a saída para o diretor Marcel Pagnol tratar dos costumes do pequeno vilarejo: a maneira como o padeiro tenta se enganar, a maneira como todos se comportam com a nova história que circula à boca pequena, a estranha reação do padre ao temer o perdão do padeiro em relação à mulher e a posição do prefeito, mais preocupado com o cavalo desaparecido.

No início, a primeira fornada de pães é celebrada: todos por ali correm para aguardá-la, como algo sagrado. O pão, caro símbolo religioso, é levado a sério; no filme, é feito com o amor do padeiro, ligado à mulher. Em tempos de cinismo, tal história pode parecer boba. Pagnol preenche-a de beleza com sua composição para essa pequena sociedade esperançosa, de pessoas que agem com o coração e não se deixam julgar.

Sobretudo, na figura do padeiro esperançoso e certamente pronto – sempre – a perdoar a inconfiável mulher. Para Pagnol, a partir da obra de Jean Giono, esse homem não deixa dúvidas sobre a validade dos seres em cena, ainda que inegavelmente fraco.

O trunfo do filme é fazer o espectador sofrer e acreditar nele, que precisa da mulher – não de seu sexo, não de sua carne, mas de sua companhia – para continuar por ali e ser quem sempre foi, ou apenas para desempenhar o papel esperado.

O filme é feito de humanismo, de simplicidade, com Raimu e seus cabelos ao alto, seu jeito assustado, sua forma de decair ao exagero – propositalmente – ao beber e decidir proclamar histórias em voz alta, pouco preocupado em parecer o homem fraco. Na pele de Aimable Castanier, assume seu sofrimento: é às vezes engraçado, às vezes trágico.

A certa altura, aceita fazer seu outro papel: em uma reunião de moradores, encontro emergencial, explica que fará os melhores pães se a mulher retornar. É quando o povo da pequena cidade entende a importância de organizar as buscas.

Contra o discurso do padre, para quem o perdão não é o melhor remédio àquele local, não naquele momento, está a aceitação de Aimable. Ao fim, ele está pronto para falar com a mulher em sua própria língua, em sua forma simples.

Ao invés de falar de ambos, fala da gata que esteve fora e voltou. Fala de si sem falar, sofre sem deixar às claras, enquanto a comédia converte-se em drama profundo, direto, amável, o que justifica a grandeza de seres como Aimable. É como explica sua vontade de seguir por ali, de fazer pães.

(La femme du boulanger, Marcel Pagnol, 1938)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Farrapo Humano, de Billy Wilder

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