Corpo e Alma, de Ildikó Enyedi

Duas pessoas aparentemente diferentes se encontram em sonhos. Do outro lado, no universo físico, elas trabalham no mesmo local, aos poucos se esbarram e se descobrem. Ele percebe ela. Ela demora a responder às intenções dele. A dificuldade do diálogo e, mais ainda, do contato físico é o que move Corpo e Alma, de Ildikó Enyedi.

O casal torna-se animal nesses sonhos. Nem por isso o animal é o típico selvagem que se imagina. São cervos, a correr por uma floresta sob a neve, a percorrer lagos e bosques em busca de água e alimento: são apenas animais livres no espaço natural, onde a única interrupção do homem é justamente o que lhe reservam os sonhos: o olhar.

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Nesses sonhos, no apagar, no convite a outro mundo, o equilíbrio vê-se pleno: espaço em que apenas vivem, apenas se deslocam, na natureza que não deixa vazão à dor, a relações complexas. Apenas se vive em silêncio nesse portal – o sonho – ao qual o casal é levado para se encontrar, para tocar o parceiro, à contramão da realidade.

O ambiente de trabalho não é o mais agradável. Estão em um matadouro, espaço de dor, em que o real explode e do qual é preciso, no caso de alguns, não de todos, desviar-se. Há carne e sangue. Como explica o protagonista, Endre (Géza Morcsányi), é possível se habituar ao sofrimento. Ele trabalha ali há anos; ela, ao contrário, acaba de chegar.

Da janela, Endre observa Mária (Alexandra Borbély) em seus primeiros dias, ou horas. A moça loura, com pouco ou nada a dizer, reserva-se às sombras: dá um passo para trás para escapar do sol, o que ajuda o espectador a entender sua dificuldade em mergulhar na natureza, no que pode tocar e assim sentir a vida. Não por acaso, à frente ela será atingida pela água em um parque, momento de reação espantosa, verdadeira, à beira do gozo.

Entre o encontro dos servos em sonhos e os olhares tristes dos bovinos prestes a serem mortos, desenrola-se a vida nada natural, mas verdadeira, desses dois amantes destinados a observar mais, a sofrer mais, no interior de suas bolhas. Em Corpo e Alma, só é possível chegar ao verdadeiro toque (o corpo) quando as almas encontram-se.

Mária será salva por esse encontro. Levada a tocar, a sentir, a descobrir a música romântica, a outra alma que a espera no refeitório do trabalho, todos os dias, para correspondê-la de alguma forma – ou como o animal que a guia, nos sonhos, pela floresta desabitada. A sensibilidade do filme torna possível uma história de amor de mínimo toque, feita de intenções, de poucas palavras, em local ocupado pela morte.

Os amantes descobrem que sonham o mesmo sonho quando são atendidos por uma psicóloga. O furto de um estimulador sexual para bovinos força a empresa a abrir uma investigação. A psicóloga deseja entender quem teria embolsado o produto. Vale questionar: por que é necessário um estimulador sexual para animais tão próximos, presos a um mesmo espaço, submetidos ao contato com os outros a todo o momento?

Mesmo enjaulados, esses animais não encontram estímulo ao coito. Nem os mais selvagens, desprovidos de consciência. São apenas bichos de olhares tristes, como se soubessem o que lhes aguarda. Não se sabe se possuem almas. Ao espectador a câmera confere essa possibilidade, sendo levado a encarar os animais em seus derradeiros momentos.

A sociedade de matadouros e filmes pornográficos expõe humanos sem a capacidade de se tocar de verdade. O filme de Enyedi é sobre a busca do toque, à medida que seus estranhos amantes resolvem saber mais, vagar pela alma do parceiro, dormir juntos sem a necessidade do sexo, apenas para revelar, pela manhã, o que sonharam. Mária, tão detalhista, e Endre, com seu braço imóvel, chegam à felicidade – não sem a alma, não sem o corpo.

(Teströl és lélekröl, Ildikó Enyedi, 2017)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
O Meu Século 20, de Ildikó Enyedi

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