O Meu Século 20, de Ildikó Enyedi

Duas mulheres representam bem os rumos do século 20, na era das novidades, com o próprio cinema a reboque. São gêmeas e foram separadas na infância, em noite com neve. Uma se torna cortesã, a outra anarquista. A primeira, Dóra, é também uma ladra, vive os prazeres mundanos; a outra, Lili, confronta a ordem, é feminista.

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São interpretadas por Dorota Segda em O Meu Século 20, da cineasta húngara Ildikó Enyedi. A exemplo de algumas questões históricas, elas insistem em se esbarrar, em se refletir. Não por acaso, o filme termina com ambas em um labirinto de espelhos.

As irmãs nasceram no dia em que Thomas Edison apresentou a lâmpada elétrica. Sob uma árvore cheia de luzes, pessoas reúnem-se para celebrar o invento. É a primeira sequência do filme, momento em que a cineasta inclina-se à forma felliniana, com imagens ao mesmo tempo oníricas e realistas, de figuras falsas mas palpáveis.

O filme não recria questões históricas com fidelidade aos fatos. Em suma, e apesar de algumas passagens que mais parecem exceções, não se filia ao real. É como se a História – verdadeira, possível, mas distante – gritasse ao fundo de uma obra com toques de cinema mudo, a homenagear os filmetes primitivos dos tempos de Edison.

O cinema é coadjuvante importante. Na sala escura, os homens deixam-se levar pela novidade, hipnotizados, enquanto são projetadas imagens em mais de uma tela. Esses quadros simulam janelas de um trem ao mesmo tempo em que a câmera move-se. A sétima arte é o anúncio do mundo moderno, da ruptura, é a tecnologia a favor da ilusão.

O Meu Século 20 é também um filme de luz, sobre a luz. Lâmpadas presas à árvore soam como algo milagroso, impossível, agora tocado; ao lado, uma banda de homens com capacetes iluminados cruza o bosque. As pessoas não acreditam no que veem. “É a coisa mais bela que vi na vida”, declara uma mulher que assiste à apresentação.

Mas Edison (Péter Andorai), o todo-poderoso inventor, não mostra empolgação com a mágica dos pontos de brilho. Ao mesmo tempo, no céu escuro, as estrelas ganham vida, as luzes ganham voz – como os deuses de A Felicidade Não Se Compra, de Frank Capra.

“Olhem que triste ele está”, observa uma estrela, às companheiras, enquanto tenta chamar a atenção de Edison. A cineasta coloca a História à mercê da mágica, ponto em que a primeira serve apenas às formas da segunda, pelo impossível que sempre ganha vez.

A tristeza do inventor talvez se deva à noção de pequenez, ou à ironia de ser ao mesmo tempo protagonista da História e uma partícula abaixo das estrelas, quase nada no meio do universo. Seria o caso de um inventor tratado como artista, em mundo de palcos e espetáculos.

Dóra e Lili nascem nessa mesma noite, ao olhar das mesmas estrelas, para depois trilharem caminhos opostos. Mais tarde, ao realizar uma palestra sobre mulheres e para mulheres, um intelectual diz que todas as damas – das mais novas às mais velhas – estão inclinadas apenas a dois papéis, sem escapatória: o da mãe e o da puta.

Sua observação (além de nos remeter ao grande filme de Jean Eustache) opõe-se às gêmeas em cena. Em seus papéis, vidas, fugas e flertes, presas à sala de espelhos do término, elas não se definem facilmente. Alimentam uma comédia sobre um tempo de ruptura, de avanços científicos, cortado por animais e astros falantes.

(Az én XX. századom, Ildikó Enyedi, 1989)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Conciliadora e angelical: Liv Ullmann em Os Emigrantes

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