Sete Minutos Depois da Meia-Noite, de J.A. Bayona

O templo do conforto chega ao fim. Quebra-se. A infância termina no momento em que a criança em cena, protagonista, vê a mãe ser tragada a um abismo, quando passa a manter encontros com um monstro imaginário. A morte, claro, remete à realidade; o monstro, dirão alguns, é fruto das fugas desse menino que se recusa a enxergar o real.

É pelo imaginário, pelo sonho compartilhado com o público, pela intimidade que reproduz o medo de ser adulto, a certeza de ser criança, que o menino de Sete Minutos Depois de Meia-Noite chega à revelação: a morte é-lhe inescapável. Difícil, assim, não pensar em alguns filmes do mexicano Guillermo del Toro, histórias nas quais o que há de pior – guerras, assassinatos, vilões militares – mescla-se a algo místico.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

No filme de J.A. Bayona, as divisas são mais claras. O que, de certa forma, permite o comodismo do público: é fácil “enxergar” as barreiras, o que deve ser ultrapassado para se aproximar do mundo adulto, ou apenas daquilo que faça o menino sustentar-se sobre o corpo da criança que ainda aparenta ser.

Nesse caso, a magia – ou a ficção – torna mais fácil encarar a realidade difícil. A morte da mãe, a presença da avó como “bruxa má”, do pai como “fujão”, dos meninos da escola como típicos vilões que não deixam o protagonista perder-se em invisibilidade. Ou, mais ainda, o universo mágico como uma maneira de o mesmo menino negar seus verdadeiros desejos: livrar-se do fantasma da mãe, de seu sofrimento.

Ser adulto, diz o filme, é encarar caminhos tortos, histórias que, ao contrário dos enredos esperados, os contos de fada recheados de seres planos, aparentemente não fazem sentido ao menino que se crê criança, ou ao adulto que nega sua passagem à esfera em que não basta quebrar a casa toda para tentar resolver os problemas da perda.

O menino, interpretado pelo extraordinário Lewis MacDougall, solicita, “sem querer”, a visita do monstro: o gigante feito de raízes assemelha-se aos seus desenhos, galhos como tinta preta e grafite sobre páginas em branco. A suposta alucinação tem motivos para existir: ele precisa liberar seu monstro interno para explicar suas contradições.

Como alguém pode “desejar” a morte da mãe? Mas esta, sabe qualquer adulto racional, tem ora ou outra de partir, sobretudo por estar em tal situação: vítima de câncer, ela definha enquanto faz tratamento, enquanto todos a rodeiam. Toda noite, nos sete minutos posteriores à mudança da data, o monstro – sob a voz explosiva de Liam Neeson – levanta da terra, no cemitério, para conversar com o protagonista.

Conta-lhe histórias. São três: a de uma rainha que não é má como parece, a de um homem religioso cuja crença não pode salvar as próprias filhas e a de um garoto que recusa a própria invisibilidade. A primeira leva o protagonista a entender sua avó (Sigourney Weaver), a segunda o pai (Toby Kebbell) e a terceira a si mesmo.

Essas histórias confundem porque começam como típicas narrativas fantásticas e, ao fim, em golpe atípico, apontam à confusão da vida real que o menino ainda tenta entender: nem sempre o estereótipo da figura má prevalece, nem sempre o que parece justo predomina. A igreja que desaba sobre o cemitério diz muito sobre o fim das certezas.

O monstro, ao contrário, prefere dar voltas para que se possa entender o que, à primeira vista, não é fácil: com raízes que invadem ambientes e grudam aos cenários, ele apodera-se da realidade não para mudá-la, mas para que seja, de alguma forma, refletida. Necessário, o monstro diz, sem surpresas, o que não se quer ouvir.

(A Monster Calls, J.A. Bayona, 2016)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Como os planos detalhe ajudam a compreender A Espinha do Diabo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s