A busca pela eternidade em dois filmes de Guillermo del Toro

O desejo de viver mais, ou para sempre, move dois filmes do mexicano Guillermo del Toro, Cronos e A Espinha do Diabo. O primeiro é sobre vampiros, ou sobre um amuleto que converte as pessoas em mortas-vivas, em busca de sangue e condenadas à eternidade; o outro, sobre a presença do limbo, sobre fantasmas.

Há personagens, nos dois casos, que não aceitam a morte. E há crianças que assistem a tudo – e, capazes de encarar o sobrenatural e acreditar, elas compreendem melhor os problemas que os adultos.

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O homem que deseja viver para sempre, em Cronos, é De la Guardia (Claudio Brook), poderoso e preso à sua empresa, castelo de metal onde se guarda em uma sala com estátuas de arcanjos penduradas, em que reveste o religioso. Nesse sentido, talvez duvide de Deus, talvez não tenha crenças. Tenta encontrar o remédio para continuar vivendo, um inseto de metal que pode lhe conferir a eternidade.

Esse objeto é, ao mesmo tempo, mecânico e vivo, dependente do sangue e hospedeiro de um monstro. Objeto pequeno, escondido em um arcanjo, nas mãos de outra importante personagem, Jesus Gris (Federico Luppi). Ao contrário do que aponta seu nome, ela não deseja viver para sempre, está pronta para a morte.

A religião marca presença nos filmes de del Toro. Suas personagens situam-se entre a materialidade e os sinais que chegam por profecias, livros antigos, fantasmas. Contra Jesus, a personagem, está o capanga de De La Guardia, Angel (Ron Perlman), tão asqueroso e violento quanto o vilão de A Espinha do Diabo, o funcionário do internato em que vivem crianças órfãs, Jacinto (Eduardo Noriega).

São seres estranhos que rondam os cantos, que não ligam para quase nada: como vampiros, ainda assim humanos, nutrem-se dos outros, sem que precisem cruzar a linha que separa a realidade do impossível.

Nos dois filmes há também o olhar infantil: para o diretor mexicano, apenas as crianças parecem aceitar com facilidade o universo místico, o outro lado, sem necessariamente lutar contra ele. Talvez por entenderem tal espaço como esperança possível – o que se veria mais tarde no incrível O Labirinto do Fauno.

Em Cronos, a criança é Aurora (Tamara Shanath), neta de Jesus. Criança verdadeira, de olhar curioso, sem que necessite dos típicos gestos orquestrados, comuns ao cinema americano, à imagem que moldou as crianças no cinema. Ela silencia com frequência e pode, a certa altura, praticar um gesto de violência para salvar o avô – morto, depois ressuscitado, e disposto a morrer outra vez.

As crianças representam esperança, tocam bombas sem que estas explodam, tocam monstros sem medo que estes partam para o ataque – o que, é provável, esteja ligado à imagem mais famosa de uma criança e um monstro no cinema, em Frankenstein. No clássico de James Whale de 1931, o monstro, ao que parece, não quer matar a pequena menina. Na tela, nasce uma atração entre opostos: o morto-vivo, ser remendado, ao mesmo tempo um e vários, e a menina que pouco sabe sobre a existência.

Mais tarde, nos anos 70, o diretor espanhol Víctor Erice realizaria O Espírito da Colmeia, passado no período da Guerra Civil Espanhola, quando uma garota, após assistir a Frankenstein, vê-se fascinada pelo monstro.

Nesses tempos difíceis em que a religiosidade, ao fundo, flertava com o fascismo, o cinema revelava monstros. As crianças sentiam-se fascinadas pelo grotesco. Pois em A Espinha do Diabo, passado também no período da Guerra Civil Espanhola, a criança volta a flertar com o monstro. Nesse caso, com o espírito de outra criança, “aquele que sussurra”, que faz a madeira ranger à noite, que visita amigos vivos.

O incrível filme de del Toro de 2001 passa-se em um internato. O jovem Carlos (Fernando Tielve) chega ao local com a mala abarrotada de histórias. É filho de combatentes da guerra civil, colocado ali sob o olhar do médico Casares (também vivido por Federico Luppi) e de Carmen (Marisa Paredes).

O local é afastado. Com frequência, del Toro volta a câmera às grandes portas e janelas. Apresenta o deserto, o horizonte. Para fora só há incertezas. Para dentro, em oposição, há o desejo de fuga, intrigas, medo, ciência e espíritos. O título refere-se às crianças que não conseguiram nascer. Ou que não deveriam ter nascido. Crianças condenadas, utilizadas pela ciência, presas a experiências humanas, conservadas em líquido.

Segundo Casares, há quem acredite que esse líquido – chamado justamente de “águas do limbo” – pode ajudar a rejuvenescer. Mais ainda, há aqueles que creem no sangue das crianças como remédio para prolongar a vida. O tema de Cronos volta à baila.

Carlos, tão curioso, sabe que um espírito vaga por ali. Primeiro sente medo, depois tenta se aproximar. Sabe que se trata de um espírito atormentado, entre dois mundos, disposto a vingar a própria morte nesse estranho “limbo” que leva ao tanque d’água.

As crianças fantasmas são filhos da Guerra Civil Espanhola, condenadas a viver pela eternidade em um meio em que as imagens religiosas e seus templos não resistem às bombas, em que os homens da ciência mostram-se cegos. Como se vê em Cronos, o tempo, para del Toro, é sempre efêmero: enquanto lutam para viver mais e rejuvenescer, algumas personagens estão próximas à morte. A pele apodrece, surgem moscas.

Nos dois filmes, o diretor mostra total controle do suspense. Não se preocupa em exagerar no sangue ou na violência, tampouco dar vida a personagens fáceis. Exemplo disso é a Carmen de Marisa Paredes, que conta com os serviços sexuais de Jacinto e nutre a mente com a poesia e o conhecimento de Casares. Sem saídas, ela vive um inferno de incertezas, ao lado de uma guerra, de crianças inocentes e de espíritos.

(Cronos, Guillermo del Toro, 1993)
(El espinazo del diablo, Guillermo del Toro, 2001)

Notas:
Cronos: ★★★★☆
A Espinha do Diabo: ★★★★☆

Fotos 1 e 3: A Espinha do Diabo
Foto 2: Cronos

Veja também:
Deuses e Monstros, de Bill Condon

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