Mulheres Divinas, de Petra Volpe

O planeta, mesmo pequeno, brilha no escuro. Os olhos da protagonista de Mulheres Divinas, Nora (Marie Leuenberger), assemelham-se aos dos filhos pequenos, igualmente deslumbrados. A questão não é geográfica, vai além. Ela tem vontade de descobrir, invadir o que é inegavelmente maior que o globo em miniatura.

A diferença pode ser vista em suas andanças e transformações. Da pequena cidade em que vive, na Suíça, à cidade grande na qual as mulheres tomam as ruas para protestar e pedir o direito ao voto; do cabelo preso e o lenço na cabeça ao corte com franja, aos fios soltos. Descobrir o que há a mais no planeta é, antes, fugir do casco duro, de certa condição.

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O trabalho da cineasta Petra Biondina Volpe é sobre mulheres que desejam ganhar espaço. Há aquelas que chegaram perto de entender e preferiram o passado, o que estava dado, o cômodo, a ordem. Uma delas, velha senhora, prega o contrário: as mulheres suíças não devem votar, devem desempenhar os papéis de sempre.

O papel da dona de casa, da mulher destinada a cuidar dos filhos, às ordens do marido, alguém impedida de trabalhar e, como aqui se vê, buscar o orgasmo. Das ruas à cama, a busca é maior: em algum momento, nesse filme cheio de bom humor, a questão envolve o corpo, o físico, olhar primeiro à própria vagina para depois observar o que rodeia.

A protagonista esbarra no discurso feminista. Certo dia, em passagem pela cidade grande, é presenteada com alguns livretos sobre sufrágio feminino e outras questões. Resolve ler. Vê-se presa aos textos noite adentro. A leitura transforma. Não demora para que passe a confrontar as mulheres conformadas de sua pequena cidade, a causar a ira dos homens que até então tinham a palavra final, também a de sua família conservadora.

Descobre, para sua surpresa, o desejo de outras mulheres: como ela, querem a libertação, o direito de escolha, a influência nas decisões dessa sociedade moldada aos gostos masculinos. Impressiona como o óbvio não ultrapassa a barreira da desconfiança, do riso masculino, do deboche, como se tudo chegasse à aberração e à monstruosidade.

A briga de uma torna-se a briga de várias. Rebelam-se a ponto de fazer greve. E o fato de não trabalharem fora de casa não impede o ato: reúnem-se no restaurante de uma delas e, por alguns dias, passam a viver ali, longe do lar, o que empurra os homens às responsabilidades que até então não tinham. São levados ao outro lado: sentem-se exatamente como as mulheres, em seus serviços diários, como servir filhos e lavar pratos.

Leuenberger imprime curiosidade. Ingênua, não tão distante da infantilidade. Passa confiança, no ponto em que a heroína revela-se humana. Feita, como o filme, ao modelo de inspiração – não distante, por isso, de outros longas recentes que tratam de questões sérias com saídas cômicas, a exemplo do inferior Estrelas Além do Tempo.

Volpe prefere a leveza, entre damas curiosas e senhoras simpáticas. Suas personagens estão próximas o suficiente para conquistar, distantes o suficiente para não derramar açúcar em excesso e causar enjoo. O espectador já viu isso antes, é verdade: em algum outro país, com outra questão ao centro. A receita adotada conquista com facilidade.

(Die göttliche Ordnung, Petra Biondina Volpe, 2017)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
O feminino e o masculino em dois filmes franceses recentes

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