Manifesto, de Julian Rosefeldt

É preciso, primeiro, separar as ideias expostas pela narração do conteúdo das imagens. Depois, tentar encontrar a junção entre lados, o que levará então à grandeza de Manifesto, de Julian Rosefeldt. As ideias, vindas de manifestos artísticos variados, são lançadas a figuras diferentes, em universos diferentes, com luzes e formas diferentes.

As ideias sobre a arte são retomadas, citadas à exaustão. Como o próprio filme diz, a certa altura, “nada é original”. Por outro lado, são suas imagens que revelam ao público a dificuldade maior: a necessidade de casá-las àquilo que é dito, junção que pode soar assustadora em alguns casos, triste e não menos irônica em outros.

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Manifesto é um compilado de ideias sobre a arte, de movimentos e momentos históricos distintos, em diferentes episódios. O futurismo, que pretende enterrar o passado e olhar para o futuro, funde-se, por exemplo, à imagem de homens como formigas, no espaço da bolsa de valores, de compra e venda de puro artificialismo: os números.

Em outro momento, fala-se de dadaísmo durante um enterro. Fala-se da imbecilidade de cultuar os mortos que podem ter sido heróis ou idiotas, o que “dá no mesmo”, como explica a personagem – sempre a mesma, ou várias, levando o espectador a novos palcos, figuras, formatos, tudo cercado por ideias sobre a arte e seus manifestos.

Essas personagens talvez sejam uma só. Um ser supremo que pode ser definido como “arte”. Talvez nenhum cineasta, ou artista, tenha feito um lance tão arriscado como Rosefeldt (não, pelo menos, que se saiba): usar uma atriz para interpretar a arte. E essa mesma atriz – Cate Blanchett, chamada em alguns momentos apenas de Cate – não pode ser apenas uma. Forma, na tela, uma galeria de máscaras, de vidas, de ideias.

A própria arte ganha voz ao fim: “Sou uma construtora de mundos, uma sensualista que venera a carne, a melodia. A silhueta contra o escurecimento do céu. Não posso saber seu nome, nem você o meu. Amanhã,  começaremos juntos a construção de uma cidade”.

Cate, atriz extraordinária que encarnou Bob Dylan e Katharine Hepburn, é capaz de ser todas as personagens, todas as “artes”, ao mesmo tempo a mesma. Mágica e contradição expostas: apesar da barba, ou do belo cabelo louro chapado, ou do olhar meigo aos filhos à mesa enquanto “ora”, será sempre alguém a ser chamada de Cate.

O filme não esconde: para tantos manifestos, tantas diferenças, uma mesma atriz. Para tantas ideias fortes, uma forma que, a despeito dos ambientes, repete-se: os espaços gélidos e enormes, o peso do deslocamento, os planos longos, com a personagem a encarar a câmera e quebrar a barreira que une o público à obra no cinema narrativo convencional.

Rosefeldt quebra essa barreira a todo o momento. Seu filme liga-se às ideias, não aos sentimentos de personagens cujas trajetórias causam identificação no espectador, a crer em determinada situação, em tempo e espaço demarcados, envolvido como está pela narrativa. Nem por isso Manifesto pode ser chamado de anti-cinema.

Filmes sobre ideias costumam não chegar ao grande público. A explicação é simples: não são associados a entretenimento, esta figura que guia boa parte das “cabeças pensantes” da sétima arte. E, de quebra, o filme ainda pede algum conhecimento prévio dos manifestos referenciados, como o construtivismo, o surrealismo e a arte conceitual.

Esse espectador com bagagem reduzida terá de buscar certa organização, ou certo entendimento do que é dito pela narradora, o que pode impedir que veja o que realmente importa: mais do que compreender os manifestos, é preciso casá-los às imagens. É dessa dialética que emergem a grandeza e a originalidade da obra.

E ainda que a organização, ou junção, seja difícil, apenas ela responde à pergunta essencial desse grande filme de Rosefeldt, a partir das notas dadaístas: como ordenar o caos que constitui esta infinita informe variação: o homem? A resposta do diretor está nas mutações de Cate, do mendigo à mulher de negócios, da dona de casa carola à senhora de marionetes, da apresentadora de televisão à professora ou à roqueira. Em todos esses seres que não escondem a falsidade, ela, em 13 faces, reproduz incontornável verdade.

(Idem, Julian Rosefeldt, 2015)

Nota: ★★★★☆

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