A Dama de Shanghai, de Orson Welles

Na pele de Michael O’Hara, o “Irlandês Negro”, Orson Welles traduz – em atos e palavras – a perdição da história. O caminho ao nada, a consciência do fim. Basta lembrar, por exemplo, da pergunta feita pela personagem do advogado ao protagonista, enquanto caminham por um local paradisíaco, à beira-mar, no México. “O mundo vai acabar?”, questiona o homem. “Se teve um começo, acho que terá um fim.”

Diálogo difícil de imaginar em tal local, vindo de tais pessoas. O tom trágico ocupa todos os cantos de A Dama de Shanghai, outro dos grandes filmes de Welles que se fingem maiores – no quesito físico, é bom salientar – do que realmente são. E isso seria ainda mais gritante nas obras posteriores, como as adaptações de Macbeth e Othelo.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Welles, à época, tinha fama de difícil, dono de trabalhos que não deram bons resultados financeiros e, de quebra, como Cidadão Kane, dispostos a peitar figuras conhecidas. Nesse caso, o magnata William Randolph Hearst, molde para Kane – interpretado pelo próprio cineasta, da juventude à velhice à frente de um império, depois obrigado a conviver trancafiado em seu castelo, sozinho com obras de arte.

O realizador tem fixação por homens aprisionados, por histórias de destino, as quais o espectador inegavelmente conhece e, no fundo, sabe em que ponto terminam. Personagem que entrega tudo antes que se peça, antes que o público espere para saber seus próximos passos. Em apenas uma frase, nas linhas iniciais: “Quando eu começo fazer papel de imbecil, pouca coisa pode me deter”, afirma o protagonista de A Dama de Shanghai.

O homem em questão está preso aos encantos de uma bela mulher. Loura, cabelos curtos, corpo escultural que a ele exibe enquanto nada, e enquanto ele serve de capanga ao marido dela, ou de guia pelas paisagens selvagens às quais apenas alguém iniciado – alguém que lutou contra o exército de Franco na Espanha – poderia se lançar.

Seu ponto fraco é revelado pela presença da estonteante Elsa Bannister, interpretada por Rita Hayworth. Levada pela carruagem, no início, ela esconde mais que outras damas do cinema noir: é mais pura e mais transparente, às aparências, que o normal. O que só torna a experiência difícil e confusa, resumida na extraordinária sequência da sala de espelhos. É ali que as personagens – a começar pelo anti-herói – perdem todas as referências.

Há dificuldade para encostar nesses seres. Seus rostos explodem na tela a ponto de expandir detalhes da gordura, de dar saliência, suor, o ar aterrorizante, sobretudo no caso do estranho Glenn Anders, o advogado com propostas curiosas ao irlandês durante sua viagem pelo México; ou, no caso de Hayworth, a pele perfeita, brilhante.

Elsa tem um marido parcialmente paralisado (Everett Sloane), sobre bengalas, que certo dia surge em um bar de homens sujos – ou machos demais – à procura de O’Hara. O protagonista havia salvado sua mulher, dias antes; agora poderá continuar a vê-la ao se transformar em seu funcionário. A bela é o falso anjo nessa galeria de seres suspeitos.

Aos jogos que o filme leva, nas frases dúbias do marido, O’Hara responde com frases fortes, deslocadas, a exemplo daquela sobre o fim da humanidade. É como se Welles respondesse à aparente falta de profundidade com tom existencial. Curiosamente, essa mescla ainda funciona, mesmo com certa dificuldade em encaixar algumas peças.

A Dama de Shanghai, do livro de Sherwood King, é visivelmente pequeno, em muitos momentos desajeitado, no qual o gênio de seu criador – identificado, em obras-primas como Cidadão Kane e Soberba, pelo fantástico uso da profundidade de campo e de belos planos-sequência, entre outros fatores – parece inclinado mais à decupagem clássica.

O crítico André Bazin observou isso ao escrever sobre o longa: “Considerado do estrito ponto de vista da decupagem e da fotografia, o filme é relativamente clássico, o que não é o caso do conteúdo das imagens”. No início, por exemplo, o espectador atento deverá torcer pela continuidade de alguns planos. Por ali, os cortes sempre dão a impressão de interromper algo, a reforçar o universo fraturado, sinistro, falso, cheio de remendos.

Noir delirante com Welles à vontade no papel central, e com Hayworth no único filme em que morre em cena. O homem que não esconde ser um imbecil certamente continuará vagando de porto em porto, de paraíso em paraíso, ao destino comum a muitas personagens do cinema noir – àquelas que ainda sobrevivem ao fim.

(The Lady from Shanghai, Orson Welles, 1947)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Bastidores: A Dama de Shanghai

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s