Espectador idiotizado (ou como chegamos à onda de filmes de super-heróis)

Os blockbusters são parte da cultura de massa há décadas. Há os bons, empolgantes; há os esquecíveis, deploráveis. O cinema voltado ao entretenimento existe desde que Méliès resolveu fazer dessa arte um veículo para sua mágica: não se tratava mais da opacidade, mas da transparência, de um fluxo de quadros que induziam o espectador a outro universo, do qual sua “prisão” (na falta de uma palavra melhor) estava ligada diretamente ao talento do diretor.

Em seus esforços para atrair a atenção e captar alguns centavos, entre crises de criatividade e financeiras, o cinema tem tentado se ajustar à demanda de um espectador que nem sempre se deixa decifrar, e que às vezes leva a sucessos acidentais. Com os filmes de super-heróis, a indústria parece ter descoberta um filão rentável longe de perder a força.

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Da chamada “arte de feira” ao universo digital em que o céu não é mais o limite, essa arte tem passado por diferentes ondas: o burlesco, o filme falado, o musical, a fita policial, a comédia social, o filme de monstro, o filme de guerra, o épico bíblico, os filmes de alienígena, os filmes com rebeldes, os filmes catástrofe, os filmes realistas e amargos, os filmes que resgatam, enfim, o prazer da matinê em meio a tempos difíceis etc.

Muitos dirão: Steven Spielberg e George Lucas são os culpados. Errado. O que reproduzia um cinema aparentemente infantil – ou o que voltou a produzi-lo em plena Nova Hollywood – ainda acompanhava inegável qualidade. Tubarão e Guerra nas Estrelas são grandes filmes. O que veio depois foi, sobretudo, uma mudança nas regras do jogo. Spielberg e Lucas pavimentaram apenas uma (pequena) parte do caminho.

Assim como esses realizadores entenderam que o espectador estava disposto a voltar para uma “galáxia muito, muito distante”, outros entenderam que os filmes de super-heróis, décadas depois, ainda tinham combustível para queimar. Superman, nos anos 70, e Batman, nos 80 e 90, apenas rasparam a superfície da mina de ouro. Por algum tempo, continuações que não deram certo pareciam ter sepultado a presença dos heróis na tela.

Outra onda pôs-se em curso no início dos anos 2000. Vieram o Homem-Aranha, os X-Men, Hulk, outra vez Superman, e outro Aranha, e outro Hulk. Repaginadas, recomeços, outros atores. Sob a batuta de Christopher Nolan, Batman ficou mais adulto. Durou três filmes. Batman vs. Superman, depois, veio dizer que era necessário infantilizar novamente. Mais luzes, mais maquiagem, mais CGI. Outra bobagem.

Com a Marvel dando as cartas, e com a enxurrada de dinheiro que seus filmes passaram a levar, inúmeros atores respeitáveis procuraram ali uma vaga, mesmo que pequena, como coadjuvante. Para ficar em dois nomes: Anthony Hopkins e Tilda Swinton.

Entre erros e acertos, a Marvel não escapa à seguinte constatação: um fracasso cinematográfico – não financeiro, que fique claro – dá vez a algo difícil de ver, indigerível, como são os casos da segunda parte de Guardiões da Galáxia e da terceira de Thor. E um mínimo sucesso não é mais que um filme bom, como Homem-Aranha: De Volta ao Lar.

Quer dizer, mesmo os melhores são pouco mais que medianos, pouco mais que bons entretenimentos. O fato é que a Marvel não fez um grande filme até o momento. As explicações são variadas, mas nenhuma será mais gritante que a falta de talento de seus realizadores, ou a proposital inclinação ao entretenimento médio voltado ao público médio.

Não se trata de subestimar o espectador. Quem o faz, na verdade, é a Marvel, não este crítico. O estúdio dá sinais de que não está disposto a ousar. O caminho é o contrário: quando uma marca mostra desgaste, como Thor, o que faz é apelar ao oposto, tornar o produto mais colorido, cômico e infantil, nada ambíguo ou adulto.

Não há problema em ser cômico, desde que a comédia em questão seja sustentável, ou se sirva de um roteiro interessante. A comédia da Marvel reduz-se a roteiros pobres, tiradas pouco engraçadas, situações inesperadas que não a fazem original.

O máximo que se pode dizer de um filme como Thor: Ragnarok é que se aproxima do nonsense – o que já soa como elogio. Banha-se em cores fortes, com um bando de gente esforçando-se para parecer desmiolada, ou engraçada, e dando à obra impacto algum. Diferentes situações exemplificam isso. Em uma delas, Bruce Banner (Mark Ruffalo) salta de uma nave para se transformar em Hulk e enfrentar uma fera, já nos momentos finais. Ao atingir o solo, no entanto, ele continua Bruce Banner. O monstro verde demora um pouco mais para surgir, algo fora do lugar. A farsa venceu a ação.

A esse balaio de “inovações”, a Marvel mantém alguns ítens amados pelos jovens consumidores de filmes, pipoca e refrigerante (nem sempre nessa ordem): as cenas pós-créditos, as participações de Stan Lee, as participações de personagens de outros filmes, o resgate de atores veteranos em pequenos papéis (Jeff Goldblum em Ragnarok, Stallone em Guardiões da Galáxia Vol. 2), além das estratégias de marketing amadas pelos fãs (e adotadas por outros estúdios), como a presença da marca em eventos de cultura geek/nerd.

A quem se dirigem todos esses filmes, todo esse barulho, todo esse visual propositalmente cafona – ou, se querem alguns, nonsense – senão para um público geek/nerd ou próximo a ele? Não se trata de criticar tal público, longe disso. A impressão, contudo, é que a fórmula de venda dirigida aos “jovens” é a “fórmula que deu certo”, na qual os filmes precisam parecer cada vez mais idiotas, para elevar o riso cada vez mais.

Ragnarok ri de si mesmo. Ri de suas bobagens, como se falasse ao espectador – nas palavras que as imagens mantêm suspensas, mas inescapáveis – que todo o consumidor desse cinema deve se sentir como um adolescente sedento por piadas e situações ridículas, quando subverter a expectativa do público passa longe de algo original ou inteligente.

E ao se deixar levar apenas por essas piadas, pelas tiradas, pelas piscadelas descontraídas de um Chris Hemsworth ou de um Chris Pratt, o espectador médio talvez esteja disposto a sair da sala com as mãos – e o cérebro – abanando. Dirão alguns: o propósito é apenas a diversão. Mas é possível ser entretenimento e ser levado a sério como cinema.

Spielberg e Lucas não deixaram o cinema mais infantil. Aqui ou acolá, filmes sempre reproduziram, em diferentes formas ou momentos, um espírito infantil e ingênuo. Basta pensar na comédia burlesca de Mack Sennett nos anos 1910 ou nos musicais dos anos 30. Ingênuos, leves, à contramão da realidade. Infantis na forma como expressam o espírito de pureza de uma nação, um mundo que podia dar certo.

Comparar os musicais da MGM com os filmes da Marvel é covardia. Cada onda representa o entretenimento para multidões em uma determinada época. Pensar nas transformações, por outro lado, é desanimador, pois o buraco que separa esses filmes não evitou que, ontem como hoje, fossem feitos em linha de produção, para atrair bilheteria. Em qualquer um dos casos, e a despeito das transformações, a indústria segue em pleno movimento.

Ainda não se sabe quanto tempo vai durar essa onda de filmes de super-herói. Não se sabe até quando o público vai ter paciência, nem quando os produtores e seus estúdios – e a resposta a esta pergunta é a mais difícil – tratarão o espectador como adulto e pensante, não um mero consumidor feito para inflar gráficos e apontar a novas tendências de mercado.

Foto 1: Thor: Ragnarok
Foto 2: Batman vs. Superman
Foto 3: Guerra nas Estrelas

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29 comentários

  1. Finalmente uma matéria que reflete exatamente a estrutura que o cinema pop chegou. Dentre todos os filmes de heróis (baseados em HQ) dos últimos anos, são poucos aqueles que me chamaram a atenção, tanto pelo roteiro ou pela quebra de paradigmas. Batman: O Cavaleiro das Trevas é ótimo! Uma excelente história policial, onde se trocassem o Batman por um policial comum ainda assim seria um bom filme. Scott Pilgrim, Sin City e Watchman saíram do mesmismo, por isso gosto de citar eles como bons filmes “de HQ”.

    Já pegando a nata popular da Marvel e DC, só sobram filmes medianos, com poucos que se enquadram no “BOM”, onde cito o 1º Guardiões da Galáxia e Logan. No mais, uma repetição de clichês e humor barato de sitcom.

  2. sera que nos filmes de terror e aventura dos anos 30 algum desocupado fez um texto assim ?? sera que durante a explosão dos filmes b de ficção cientifica da deca de 50 com seus monstros gigantes algum geniosinho presunçoso escreveu algo parecido ?? durantes os exploitations dos anos 70 ?? os filmes de brucutu dos anos 90 ?? eu acho que algumas coisas nunca mudam afinal de contas.

    1. Qualquer crítica e análise é reflexo de seu tempo, do chamado Zeitgeist – para o bem ou para o mal. Há muitos filmes ruins para além dos filmes de super-heróis, e uma variedade em seu próprio terreno. E, sim, existem filmes clássicos ruins. Qualidade e época não têm nada a ver. Abraços!

  3. Agora se você curte um filme com pegada mais aventuresca e despretensiosa você é um “expectador idiotizado”… Aí quando eu digo que “nerd” é um pessoal extremamente chato e mimizento eu sou hostilizado.

  4. Também não aguento mais filmes de super heróis, as idéias já foram sugadas até o bagaço. Vez ou outra pode aparecer um filme que empolguei com criatividade e histórias mais elaboradas, porém, a temática seguirá a mesma. Agente curte filmes de acordo com as fases de nossas vidas e assim como amadurecendo pra ela, amadurecendo nosso gosto por cinema também. Pegar fila pra ver super atores com fantasias engraçadas tentando se levar a sério hoje me parce ridículo. Mas não quer dizer que para um adolescente ou um fã de quadrinhos isto signifique o mesmo. É pra responder o questionamento da crítica acima; isto vai durar muito viu, enquanto encher os bolso de Hollywood, o que significa, muito tempo.

  5. Artigo arrogante, pedante e generalizador aproveitando a velha máxima “detonar tudo que faz sucesso”, como se curtir filmes de heróis te torna automaticamente um mentecapto idiota, a pessoa não abre espaço na mente dela para outros tipos de filme ou parece que já assisti com uma critica negativa formada, posso dizer também critico idiotizado( ou como a internet cria os pseudointelectuais)

    1. Redondamente enganado, meu caro. Aqui mesmo na página já escrevi sobre bons filmes de super-heróis e outros filmes que fazem sucesso e que são muito bons. Leia mais, informe-se mais. Abraços!

  6. Vai na linha do que eu penso. É uma sequência de filmes “enlatados”, que não deixam nada em você. E não tem problema assistir filmes “enlatados”, todo mundo precisa não pensar vez ou outra, mas eu, como fã de HQs, fico chateado de ver que toda a nova geração de filmes de super-heroi estão seguindo nessa lógica… Principalmente quando já se teve bons exemplos de que dá para fazer um bom filme desse gênero com um conteúdo minimamente original e de qualidade.

    1. Ah, “namoral”, pensei que o comentário tinha algum nexo crítico ou ao menos uma análise imparcial (será que isso existe???). “Namoral”, você está no blog errado (risos). Abraços!

  7. Já não vou aos cinemas desde a porcaria do Star Wars VII… gostei muito do texto e representa a forma de pensar de muitas pessoas que gostam de cinema. Uma dica, existem bons filmes fora desse circuito americano, a tristeza é perceber que a maioria deles não passam nas salas de cinemas… uma pena.

  8. Exatamente. São filmes cheios de efeitos mas muito vazios. Esse terceiro filme do Thor eu não assistiria novamente nem de graça pois não cativa e nem empolga, piadas forçadas, não serve nem para as crianças pois as animações de hoje dão de 10×0 por serem mais inteligentes e divertidas.
    Nem se compara com Logan ou O cavaleiro das trevas que já assisti várias vezes.

  9. Corretíssimo.
    “É possível ser entretenimento e ser levado a sério como cinema.”
    Eu digo isso sempre. Aparentemente qualquer discurso em respeito a sétima arte que não concorde com o rumo imbecilizado que filmes de super heróis vem tomando soa para a grande massa como pedantismo crítico/cinematográfico.
    Eu consumi thor como quem vai ao cinema despretensiosamente, com a família, mas não deixei de amargar rancor ao sair da sala, um pouco incomodado, por ser confundido com uma ameba.
    Brilhante seu texto. Continue com o bom trabalho.

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